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Vale a pena votar em qualquer mulher nas eleições?

Colunista discute se a busca por representatividade feminina na política exige pureza ideológica ou se a mera presença de mulheres nos espaços de poder já transforma a sociedade.

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Vale a pena votar em qualquer mulher nas eleições?

A campanha feminista para diminuir a desigualdade no poder ganhou nos últimos anos uma ressalva importante: a recomendação para votar em mulheres, mas não em qualquer uma. Durante muito tempo, defendeu-se que a representativa precisava vir acompanhada de um alinhamento ideológico, pois uma figura de direita continuaria sendo conservadora apesar de compartilhar o mesmo gênero. No entanto, a perspectiva sobre o tema mudou, pois mesmo aquelas pessoas com quem há divergências profundas exercem um papel fundamental na política institucional.

É fundamental apoiar candidaturas femininas, inclusive daquelas que pensam de forma oposta aos ideais progressistas. A mera presença feminina nesses espaços contribui para alterar a fotografia do poder e normaliza algo que ainda soa como anomalia no Brasil: cidadãs ocupando cadeiras de decisão. Quando o eleitor se acostuma a ver líderes comandando comissões e debatendo orçamentos, barreiras culturais silenciosas são rompidas, destruindo a visão de que a política é um clube exclusivo masculino.

Diante de escândalos recentes em Brasília, é comum surgir a ilusão de uma suposta superioridade moral feminina ao observar o envolvimento de homens em esquemas. Contudo, a corrupção não é uma falha de caráter exclusivamente masculina; o cenário atual reflete simplesmente o fato de que eles formam a esmagadora maioria nesses ambientes. O sistema político brasileiro foi historicamente desenhado por e para a manutenção de seus pares.

Levantamentos internacionais mostram que governos com maior proporção de mulheres tendem a apresentar menores índices de fraudes, mas o motivo não é uma virtude inata. A verdadeira razão é que sociedades abertas o suficiente para promover a igualdade eleitoral são, por natureza, democracias mais transparentes e com instituições sólidas. Debates sobre propostas retrógradas trazidas por parlamentares conservadoras encontram barreiras no próprio debate público e na pressão popular, como ocorreu em iniciativas polêmicas recentes.

Vale lembrar o contexto histórico da Assembleia Constituinte de 1987, quando as mulheres eram apenas 26 entre 559 parlamentares e enfrentaram o preconceito sob o apelido de ‘Lobby do Batom’. Naquela ocasião, deputadas de direita e de esquerda uniram forças, deixaram divergências partidárias de lado e garantiram conquistas fundamentais para a legislação nacional porque estavam sentadas à mesa.

A meta é ocupar palanques, presidências e prefeituras até que a participação feminina deixe de ser exceção e vire regra. Quando as mulheres formarem metade ou mais do Legislativo, haverá o espaço necessário para a pluralidade de perfis, superando a barreira matemática e mudando definitivamente a fotografia dos Três Poderes no país.

Fonte: www1.folha.uol.com.br

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