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A impermanência e o tempo: reflexões sobre a matéria, a biologia e a aceleração social

Artigo do professor Marcos Buckeridge discute como a nossa permanência física na Terra depende da impermanência da matéria e como a sociedade contemporânea lida com a aceleração temporal.

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A impermanência e o tempo: reflexões sobre a matéria, a biologia e a aceleração social

A nossa permanência física na Terra só existe porque um vento de matéria passa por nossos corpos, deixando átomos em determinadas posições por algum tempo e mantendo a estrutura que permite que nossas redes neurais criem a ilusão da realidade. No entanto, essa permanência é, de fato, impermanente, mostrando que somos estruturas transitórias e cíclicas. Com o tempo, essa estrutura ilusoriamente permanente chega a um limite organizacional e se desfaz, um tema explorado pelo professor Marcos Buckeridge em suas reflexões sobre a vida e a matéria.

Em biologia, o termo ‘turnover’ refere-se à substituição molecular periódica que ocorre por meio do metabolismo. As células substituem constantemente moléculas velhas por novas idênticas, impulsionadas pela fotossíntese e pela energia do Sol. Esse processo revela que os seres vivos funcionam como verdadeiros mosaicos temporais, onde diferentes moléculas e estruturas possuem tempos de vida distintos que culminam no ciclo biológico do nascimento e da morte.

Além da dinâmica celular, a existência da vida na Terra está conectada aos movimentos cósmicos e aos ciclos de luz e escuro gerados pela rotação do planeta. A luz atua como um maestro que mantém células e moléculas sincronizadas, regulando o sono, o despertar e as estações do ano. Eventos históricos e naturais, como a erupção do Monte Tambora em 1815 e o consequente ‘ano sem verão’ de 1816, demonstram como alterações climáticas abruptas provocam impactos em cadeia na agricultura, na economia e nas sociedades humanas.

A natureza e a história operam em relógios diferentes, fazendo com que cada elemento mude em seu próprio ritmo. Enquanto uma célula substitui suas moléculas rapidamente, uma floresta leva séculos para se organizar e as sociedades demoram anos para transformar crises agrícolas em mudanças políticas. Contudo, a humanidade passou a exigir que o mundo se adapte ao seu próprio ritmo, criando tecnologias para encurtar distâncias e transmitir informações sem interrupções.

Esse cenário de busca constante por economia de tempo gerou uma paradoxal escassez temporal, amplamente estudada pelo sociólogo alemão Hartmut Rosa. Para ele, a modernidade caracteriza-se por uma sociedade que precisa acelerar continuamente para continuar existindo. Essa dinâmica altera profundamente a relação humana com o tempo e expõe os limites de uma civilização que tenta unificar múltiplos ritmos naturais sob um único relógio industrial e digital.

Ao final, assim como a aparente permanência do corpo humano depende da impermanência e da renovação constante da matéria que o constitui, a sociedade contemporânea parece ter transportado esse paradoxo para sua própria estrutura. Se a tese da aceleração social estiver correta, a humanidade pode ter entrado em uma forma extrema de impermanência, na qual não basta mais mudar para permanecer, tornando-se obrigada a acelerar para não desaparecer.

Fonte: www.campograndenews.com.br

Escrito por

Jeder Fabiano