O novo filme “Digger”, dirigido por Alejandro González Iñárritu e com estreia nos cinemas brasileiros marcada para o dia 1º de outubro, traz uma premissa de forte atualidade ao abordar o possível colapso ambiental e a exploração de petróleo. A produção conta com um elenco de peso liderado por Tom Cruise no papel do poderoso empresário do setor petrolífero Digger, além de nomes como Sandra Hüller e Riz Ahmed, e retrata um sistema de exploração que se rompe na Groenlândia sob a figura de um presidente dos Estados Unidos interpretado por John Goodman.
Apesar de carregar boas intenções e tratar de um tema urgente como a iminência de um desastre ambiental apocalíptico, a obra tropeça em escolhas estéticas e narrativas. O tom de sátira política combinado com uma abordagem farsesca revela-se inconveniente. A começar pelo uso de Tom Cruise no papel principal, cuja caracterização o deixa tão irreconhecível que os méritos da maquiagem acabam ficando em segundo plano diante da confusão da trama.
Outro ponto crítico apontado é a insistência em uma farsa monotonamente frenética do início ao fim. Embora o objetivo pareça ser evidenciar os problemas da extração de petróleo e as semelhanças das atitudes do presidente fictício com a condução política de Donald Trump, a decifração dos diálogos e gritos dos atores torna-se excessivamente óbvia, esmiuçando sem sutileza a relação entre políticos, empresários, militares e religiosos.
O roteiro inova ao situar o início do desastre ecológico na Groenlândia, território cobiçado militarmente por líderes norte-americanos na realidade, conectando a plataforma de petróleo de Digger a um iminente colapso nas costas europeias. No entanto, o potencial geopolítico dessa discussão — que expõe o desprezo dos poderosos dos EUA por seus aliados europeus — acaba diluído pela rapidez com que a narrativa transita para outros conflitos.
Em sua tentativa de construir uma sátira de grande porte, o filme tenta dividir a responsabilidade pelo futuro distópico entre os poderosos e o próprio público, sugerindo uma cumplicidade coletiva. Contudo, essa inserção forçada do espectador no rol de culpados gera um contrassenso narrativo, afastando a plateia do foco central da denúncia ambiental sem lhe oferecer uma compensação dramática consistente.
Por fim, somado à estridência sonora e à monotonia cromática que caracterizam a direção de Iñárritu, o longa acaba por esterilizar seu próprio potencial crítico. O resultado final é uma produção que, apesar de relevante pela temática e pelo esforço técnico, consolida-se como um trabalho confuso, fraco e distanciado da força que pretendia transmitir.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
