A discussão em torno de conceitos filosóficos e políticos contemporâneos traz à tona a relevância de resgatar o pensamento de intelectuais como Mark Fisher e Herbert Marcuse. Longe de invocações literais do passado marxista tradicional, o debate contemporâneo aborda o chamado comunismo lisérgico, termo difundido por Fisher para sintetizar a união entre a crítica estética e existencial dos movimentos contraculturais e a luta social por direitos.
No pensamento de Fisher, essa vertente condensava o projeto de somar a experimentação dos anos 1960 às demandas contra a Guerra do Vietnã, em favor dos direitos civis, do orgulho gay e da preservação ambiental, acompanhadas de forte apelo cultural e festivo. Trata-se justamente de dimensões que a recente renascença psicodélica clínica — desenvolvida em instituições como a Universidade Johns Hopkins e o Imperial College — tendeu a isolar ao focar em transtornos individuais.
Mark Fisher faleceu em 2017, antes de testemunhar desdobramentos mais recentes dessa guinada, mas deixou reflexões profundas sobre as amarras do sistema. Em seus escritos, o autor frequentemente recorria à obra de Herbert Marcuse, especificamente em ‘Eros e Civilização’, onde se argumenta que o avanço das possibilidades de libertação individual é acompanhado pelo enrijecimento das restrições para preservar a ordem de dominação dominante.
Para Marcuse, a civilização precisa se defender ativamente contra a perspectiva de um mundo genuinamente livre. Esse status quo neoliberal, também batizado por Fisher como realismo capitalista, impõe a premissa de que não haveria alternativas viáveis ao modo de produção e consumo vigente, sufocando aspirações coletivas de transformação social.
A provocação deixada por Fisher aponta para a hipótese de que o sucesso do neoliberalismo não comprovaria a inevitabilidade do capitalismo, mas evidenciaria a dimensão da ameaça representada por uma sociedade estruturada sobre a liberdade. O resgate dessas ideias, portanto, afasta-se tanto das miragens saudosistas da extrema-direita quanto de leituras estritamente místicas das práticas ancestrais.
Discutir o legado de Marcuse e Fisher torna-se imperativo para evitar atalhos simplistas e reabrir o horizonte do pensamento crítico. Ao examinar as raízes da contracultura, abre-se espaço para repensar alternativas diante das amarras econômicas e existenciais do presente.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
