A inteligência artificial tem ganhado espaço em uma nova frente da disputa eleitoral durante as eleições de 2026: a produção em escala de imagens ofensivas contra mulheres na política. Um levantamento realizado pelo projeto MonitorA, observatório de violência política de gênero nas redes sociais, identificou indícios do uso de inteligência artificial em 25% das imagens classificadas como ataques ou insultos dirigidos a candidatas na plataforma X. Outros 9% dos casos ficaram em uma zona de incerteza, na qual os pesquisadores não puderam determinar se houve ou não manipulação tecnológica.
O dado é fruto de uma análise detalhada de 11.137 imagens publicadas em 9.393 comentários nos perfis de 132 candidatas monitoradas ao longo de dois momentos específicos da campanha eleitoral: a largada da disputa, ocorrida entre 16 e 24 de agosto, e o período posterior à crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) e o caso Master, de 2 a 11 de setembro. Ao todo, 660 imagens foram classificadas diretamente como ofensivas contra as candidatas na rede social.
Diferentemente do temor tradicional que envolve o uso de deepfakes e desinformação altamente sofisticada, os pesquisadores concluíram que a maior parte do material analisado não tenta se passar pela realidade. Trata-se, na verdade, de charges, memes, montagens e falsos materiais de campanha produzidos com o objetivo explícito de humilhar, ridicularizar ou desumanizar as candidatas. O relatório aponta que a IA surge, sobretudo, como mais uma ferramenta facilitadora para a fabricação e disseminação em massa de conteúdos hostis.
O estudo diferencia os conteúdos impróprios em duas categorias principais: insultos e ataques. Os insultos compreendem ofensas com linguagem hostil e dura, mas que não recorrem diretamente a marcadores estruturais de desigualdade, somando 269 registros. Já os ataques buscam inferiorizar e deslegitimar as candidatas com base em características de grupos historicamente marginalizados — como gênero, raça, sexualidade, deficiência ou religião —, totalizando 391 conteúdos que, segundo o observatório, deveriam ser removidos pelas plataformas devido ao caráter discriminatório.
Entre as monitoradas, a candidata Marina Silva (Rede) concentrou o maior volume de registros ofensivos, com 125 ocorrências, seguida por Sâmia Bomfim (111) e Erika Hilton (109), ambas do PSOL. Juntas, essas três parlamentares responderam por quase metade de todas as imagens agressivas encontradas pelo estudo, demonstrando que cada candidata acaba sendo associada a repertórios específicos de violência digital que atravessam diferentes correntes do espectro político.
O relatório detalha ainda que Sâmia Bomfim foi alvo predominante de conteúdos gordofóbicos (70,6% dos ataques), enquanto Erika Hilton enfrentou campanhas transfóbicas (47,9% dos casos) com negação de identidade de gênero. Marina Silva concentrou ataques misóginos, desumanizantes e etaristas, aparecendo em montagens como animais, alienígenas ou com idades artificialmente avançadas. Quando classificados de forma geral, a misoginia liderou as ocorrências (25,3%), seguida por gordofobia (14,1%), transfobia (11,8%), desumanização (10,0%) e racismo (6,9%).
Fonte: g1.globo.com
