A Taba dos Anacés, primeira reserva indígena implantada pelo Estado do Ceará, abriga atualmente 163 famílias distribuídas em aldeias como Baixa das Carnaúbas, Currupião, Matões e Bolso. O território de cerca de 543 hectares foi estruturado a partir de um acordo formalizado em 2013 entre o Governo do Ceará, a Funai, a Petrobras e o Ministério Público Federal, sendo entregue oficialmente em 2018 para reassentar famílias afetadas pelos projetos industriais do Complexo do Porto do Pecém.
Apesar da consolidação da área, a reserva está inserida em um dos contextos mais sensíveis de segurança pública no estado. O entorno do Porto do Pecém tornou-se estratégico para o tráfico internacional de drogas devido às conexões marítimas diretas com a Europa. O município de Caucaia, vizinho à região, registrou taxas alarmantes de violência, figurando nacionalmente entre os locais com maiores índices de mortes violentas intencionais conforme dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Ainda que a liderança indígena reforce que a reserva não se encontra sob o domínio de facções criminosas e preserve sua rotina cotidiana sem grandes impedimentos internos, a realidade externa é sufocante. Relatos apontam que a presença de grupos criminosos ramifica-se por diversas atividades econômicas e sociais do entorno, exercendo forte controle sobre o território circundante e extrapolando o debate restrito ao narcotráfico armado.
Internamente, os episódios associados à criminalidade mantiveram-se limitados ao longo dos anos. Foram registradas ameaças a uma placa comunitária durante a pandemia, pichações na escola local e a presença temporária de um indivíduo ligado a atividades ilícitas. Contudo, em algumas localidades vizinhas, a influência dessas estruturas paralelas chega a ser acionada informalmente pela população para a resolução de conflitos cotidianos ou recuperação de bens roubados, na ausência de respostas institucionais eficientes.
Para as lideranças locais, a preservação da autonomia interna da Taba dos Anacés está fortemente vinculada ao seu status jurídico. O território é classificado como uma reserva regularizada e desintrusada, o que assegura a ocupação restrita a indígenas após a retirada de ocupantes não indígenas. Atualmente, apenas dois territórios no Ceará contam com essa característica jurídica específica: a Taba dos Anacés e o território Córrego João Pereira, situado no município de Itarema.
Em contrapartida, a comunidade aponta a carência crônica de políticas públicas como um dos maiores entraves na região. Segundo relatos locais, a presença do poder público nos arredores e periferias manifesta-se predominantemente por meio da repressão policial, com escassez de serviços básicos ou oportunidades. A atuação estatal na reserva resume-se, muitas vezes, a serviços essenciais básicos, como a coleta de lixo feita pela prefeitura após anos de reivindicação.
Como forma de contrapor as vulnerabilidades do entorno e afastar influências indesejadas, a comunidade aposta em forte mobilização coletiva e em projetos de ocupação de espaços públicos. Os próprios moradores investiram recursos financeiros próprios e trabalho braçal na construção, melhoria e iluminação de campos de futebol e áreas de lazer, criados propositalmente para manter adolescentes e jovens engajados em atividades esportivas e comunitárias durante os períodos noturnos.
Em meio ao avanço do crime organizado e aos elevados índices de violência no Ceará, a Taba dos Anacés segue resistindo por meio da força de seus laços familiares, da vigilância territorial e da organização coletiva, buscando blindar sua rotina e preservar a identidade cultural em uma das rotas mais vigiadas do narcotráfico nacional.
Fonte: noticias.uol.com.br
