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A Indecifrável Singularidade de Eretz

A Indecifrável Singularidade de Eretz

A INDECIFRÁVEL SINGULARIDADE DEERETZ

(para ler ouvindo “Má Vlasta” de Bedrich Smetana)

Você não nasceu ontem. Pequenos passos, não mais infantis. Tuas trajetórias versam sobre mirra e incensos. Sobre escritos quase extintos. Mas tua carne veio do pó, do pó do qual se ergueram os indigentes e ressurretos dos campos de concentração. Dos refugiados dos pogroms, e dos que estiveram perto de perder a noção de horizonte. Não há vítimas quando é o senso histórico arde na pele. É a combustão que nunca passa.

Mas foi o vinho, um kidush tinto que reapareceu. Israel só está aqui porque foi pintado sobre uma geografia que fixa cores. Uma paisagem que não pode ser mudada, não deve ser armazenada, e jamais deslocada. Sion não está de passagem. Os montes não mentem, mostram os caminhos da elevação. O Nebo para apontar a direção. O Mar Morto para elevar a distinção. Eles vivem para lembrar do sal que silenciou o mundo enquanto seis milhões perdiam a voz para o nada.

Poetas nunca ganharam guerras, não solucionam conflitos, e, a despeito da ineficácia, alertam eras. E terras. Prenunciam invernos e reabilitam verões. Revolvem as sensações. E na memória evocada, na insistência da trajetória, a evocação recusa ser sufocada. Não mais se trata de nacionalidade, nem de julgamentos sob a idade da nação. Israel sobrevive sob coação. Subsiste com pressão. Um porto para a liberdade, um bastião contra a tirania, uma barreira à escatologia.Um mural anímico para barrar os tentames da intolerância. A cultura, a despeito dos arredores secos e hostis, tem a coragem de permanecer; entre preceitos ferozes e sutis.

E a intraduzível Chutzpá: induzes dignidade diante das iniquidades. E para se opor à primazia da tirania, uma dose de anarquia. O tônus da galhardia. Toda permanência exige coragem. Uma ousadia preternatural fez-se hábito, acima das agruras da viagem. Uma cultura que germinou outras. Jerusalém e Atenas esculpiram a imagem do mundo. Contaminou vida com inspiração incomum: nenhuma flauta ou sequência melódica pode conte-la, circunscrevê-la, descreve-la.

Israel é irreconhecível porque flua em estados distintos. Sopra seu espírito como a água que respira. Umbral que fixa os códigos dos céus na terra. Eretz paira onde o Mel atrai o polem. Onde a irrigação acende a floração. E a tekhné feita a mão, não substitui o artesão

E de norte a sul, das primícias em gotas aos oásis perdidos suas cidades sonham com a paz ignota.

Ah Jerusalém, que se ergue sobre o monte do templo. Que se despede dos peregrinos sem destino. Uma elevação que se fixa com as demais ondas de sol. E o amarelo dos teus tijolos indica a passagem para o Muro. Lá, beduínos e judeus de todas as cidadanias te miram ainda um espaço sem fim.

São tuas as vielas do norte e tuas as praias sem margens. Os escribas e as crianças de peiotes, os bebês que exibem suas graças aos mascotes.

Todos te percorrem em sonhos. Os livros doados para bancos de praças. Israel é irreconhecível porque cria órbitas nunca poderão ser apreendidas. E sua trajetória vem comutando a ordem da história. Os museus à céu aberto e as peças enterradas no subsolo e teus cantos sobem da areia com vivacidade e encanto. Teu legado é estranho. Estranho e incompreendido. E quem só te teme é porque não conhece o coração que encontra abrigo nos que te habitam.

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A paz é a utopia mais cara e instigante. Essa é a garantia da beleza. Forjadas e não cunhadas nas sutilezas.

Nem mesmo tua independência pode garantir que a vida seguiria adiante. Nem teus pioneiros sonhavam contigo sem lutas. Tua vida está nas travessias, nos desertos, nas passagens de abismos, canyons e sombras. E, ainda assim, há um horizonte solar em tuas promessas. Como foste capaz de criar tâmaras e mercados caóticos? Messias em todo canto, campos de mel e caminhantes exóticos? Teu enigma é a partícula errática que despista a luz com luz. A radiância estática que nunca se reduz. E mesmo as loucuras em teu semblante nos arremessa à face do teu Pai e amante. O Altíssimo que te guarda do Infinito. Criaste os heróis. Enquanto alguns aspiram pergaminhos, e os corvos sobrevoam os ninhos, os seculares se ocupam dos espinhos.

E assim gerações te observam e a natureza se faz clarividente. O Senhor não é apenas do Exércitos, mas de uma coalização forjada com o aço da justiça, a estética costurada nas promessas de convívio. Na benevolência das primeiras premissas. Os pioneiros dos campos inóspitos nos primeiros kitbutzim, a determinação ingênua dos alutzim e as vigas que fincaram as primeiras estradas na poeira do Neguev.

Tuas entranhas Israel, são luminares, mas ainda assim não há nada que se equipare às tuas façanhas peculiares. Não são as guerras, nem a economia ou tua cultura vibrante.

Enquanto os destinos desconfiam das expectativas. As perspectivas, vicejam nas vidas do teu futuro.

Há um mistério persistente, imemorial, é ele que guia de perto a alma dos transeuntes pelo vale do incerto, uma determinação sem igual.

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