Como opera a rede de coiotes que traz cubanos ao Brasil via Amazônia: ‘Crise humanitária’
Não, Cuba não é pobre por causa do embargo; entenda no vídeo
Na coluna em vídeo, no programa Fronteiras, Rodrigo da Silva explica como o grande culpado pela pobreza em Cuba não está em Washington.
BOA VISTA – Uma rota de migração irregular de cubanos pela Amazônia está na mira das autoridades brasileiras. A entrada tem ocorrido de diferentes formas. Alguns cruzam a pé a ponte que liga Lethem, na Guiana, a Bonfim, em Roraima. Outros recorrem a barcos clandestinos para cruzar o rio que separa os dois países.
Do início do ano até o último dia 11, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) resgatou 225 cubanos em situação irregular durante abordagens na BR-401, que vai até a nação vizinha. Em 2024 e 2025, o número havia ficado em torno de 60 cubanos flagrados por ano. Ontem, 11, durante uma ação de patrulhamento, a Polícia Militar de Roraima (PMRR) resgatou mais 35 cubanos. Eles faziam a travessia a pé da ponte dos Macuxis do Cantá, na região Norte de Roraima, para a capital Boa Vista. Esse foi o segundo resgate que ocorreu em menos de três dias (saiba mais abaixo).
“Cuba tem muitos problemas. Não tem luz, água, gás, comida, os preços estão altos e o salário não alcança”, contou ao Estadão a cubana Beatriz, que busca se regularizar em Boa Vista. O país caribenho tem enfrentado uma crise sem precedentes após o bloqueio energético imposto pelos Estados Unidos neste ano, o que resultou em apagões e redução de atendimentos médicos.
Os planos de Beatriz, de 29 anos, são de trabalhar em Florianópolis para juntar dinheiro e trazer para o Brasil os filhos, de doze e sete anos, que ficaram em Cuba com a avó.
Segundo a polícia, os coiotes cobram cerca de US$ 10 mil (cerca de R$ 51 mil) por pessoa para organizar o percurso completo, incluindo transporte terrestre, travessia de fronteira, hospedagens temporárias e passagens aéreas dentro do Brasil. Desde o começo do ano, 16 coiotes foram presos pela PRF.
Diante desse movimento migratório, nesta quinta-feira, 11, a Polícia Federal deflagrou a Operação Conexão Norte, com o objetivo de desarticular o grupo que é investigado pela prática do crime de promoção de migração ilegal. Foram cumpridos três mandados de busca e apreensão na capital roraimense e um na cidade de Bonfim. Ninguém foi preso.

PRF resgata mais 43 cubanos entrando ilegalmente no Brasil pela Amazônia, em Roraima Foto: Ascom/PRF
“Existe uma rede bem coordenada que envolve brasileiros, guianenses e cubanos, que organizam toda a viagem”, afirma Isaías Magalhães, chefe de comunicação da PRF em Roraima.
“Estamos diante de uma crise humanitária. São pessoas exploradas economicamente durante toda a viagem”, continua. Beatriz define como “horrível” o esquema organizado pelos coiotes. “Não quero recordar”, diz ela.
Em geral, o trajeto envolve um voo de Havana a Georgetown, e depois um percurso de carro até a fronteira em Lethen/Bonfim.
A BR-401, que liga Bonfim a Boa Vista por cerca de 125 quilômetros, é o corredor seguinte. A estratégia envolve veículos alugados que chegam à fronteira, embarcam grupos de até 12 pessoas em carros projetados para cinco ocupantes e seguem em direção à capital roraimense.

O transporte rende aproximadamente US$ 300 por passageiro. Com dez pessoas em um único carro, cada viagem pode gerar entre R$ 10 mil e R$ 15 mil aos transportadores. “Muitos têm se aventurado nessa empreitada porque é muito vantajoso”, diz Magalhães.
As abordagens da PRF mostram que a maioria dos condutores presos é de brasileiros sem histórico de atuação em redes migratórias. Alguns, porém, já têm antecedentes por contrabando, descaminho e tráfico de drogas.
Além disso, a tentativa de driblar a fiscalização torna a rota ainda mais perigosa. Quando percebem a aproximação das viaturas, motoristas costumam abandonar a BR-401 e entrar em estradas vicinais de terra em alta velocidade.
O resultado tem sido uma sequência de acidentes e mortes. Em 2025, dois cubanos morreram após o capotamento de um veículo em fuga.

Vítimas têm sido encontradas pelas autoridades em situação degradante Foto: Ascom/PRF
Nos últimos dias, para escapar da PRF, os coiotes abandonaram os migrantes cerca de 10 quilômetros antes de chegar em Boa Vista.
Sem comer há dois dias
A estrutura da rede não termina na fronteira. Na segunda-feira, 8, durante a Operação Rota Segura, a PRF encontrou 61 cubanos alojados em uma casa em Cantá (RR) usada como ponto de apoio enquanto aguardavam transporte ou passagens para outros Estados.
A polícia também encontrou 47 pessoas – entre adultos, idosos e crianças – em condições físicas adversas. Conforme a PRF, muitos relataram estar sem se alimentar há pelo menos dois dias”.
A operação resultou no maior resgate humanitário já registrado pela corporação em Roraima. No dia 8, no total, os policiais localizaram 108 cidadãos cubanos em condições degradantes. Cinco brasileiros suspeitos de atuar como coiotes foram presos em flagrante.
As vítimas são direcionadas para abrigos da Operação Acolhida, onde já têm sido atendidos os venezuelanos nos últimos anos.
Segundo dados do Ministério da Justiça e da Segurança Pública, houve 41,9 mil solicitações de refúgio de cubanos no Brasil em 2025, quase o dobro do ano anterior, quando foram 22,3 mil. Já em 2026, já foram 13,4 mil pedidos.
Geografia favorece rota
Para autoridades, a geografia ajuda a explicar a escolha da rota. A proximidade entre Cuba, Guiana e Suriname facilita a oferta de voos comerciais para a região. Além disso, a fronteira entre Brasil e Guiana tem trechos vulneráveis e está conectada a uma rodovia asfaltada que leva rapidamente à capital roraimense.
Uma rota alternativa, menos frequente, é voar de Cuba para o Suriname e depois entrar no Brasil pelo Amapá.
Uma vez em território brasileiro, os migrantes conseguem adquirir passagens para voos domésticos usando documentos de identificação emitidos em seus países de origem. O destino final costuma ser cidades do Sudeste e do Sul.
“Em um mundo cada vez mais fechado para a circulação de pessoas, o Brasil continua um dos países onde migrantes conseguem permanecer de forma regular enquanto aguardam a análise de pedidos de refúgio ou outras formas de documentação”, diz João Jarochinski, pesquisador nas áreas de relações internacionais e migrações na Amazônia.
Em nota, o Ministério da Justiça e Segurança Pública informa que monitora os fluxos migratórios por meio de sistemas integrados e de uma base de dados unificada, atualizada mensalmente.
A pasta também diz atuar, “em articulação com outros órgãos públicos, no enfrentamento ao contrabando de migrantes e à atuação de grupos criminosos que promovem o transporte irregular de pessoas”.
Procurados pela reportagem, o Itamaraty e as embaixadas de Cuba e da Guiana não comentaram.



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