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Moisés contra a era da Dispersão

Moisés contra a era da Dispersão

Moisés contra a era da Dispersão. 

“Há épocas em que o progresso é apenas o progresso da técnica, e a distância entre os homens e a humanidade continua a mesma ou até aumenta.”

Bertolt Brecht

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— Pegue as tábuas, não esquece das tábuas!

— Temo Senhor, entenderão o sentido? Saberão o significado?

— Temor? Depois de tudo? Ora, só deves temer a mim!

— É que…

(Sóis iluminam juntos a vastidão escura do espaço, Moisés, fotofóbico, mal consegue enxergar)

— Vai, desce filho, só desce!

— Fui!

No acampamento, 600 mil pessoas estavam totalmente imersas em seus celulares, desertas em pleno deserto.

Acompanhando sua descida, a montanha, o Sinai, antes seco e infértil, explodiu em flores, e assim emanou a rara umidade pura com alfazema.

Moisés trazia e as tábuas, ergueu os blocos de pedra esculpida e se posicionou para comunicar ao povo:

— Trago boas novas para a humanidade. Não são só leis que carrego, eis que sou o emissário de uma nova ética, trago um código, viveremos sob outros valores, chegou a vez da ética do amor.

A maioria lançou um olhar alienado como se dessem de ombros para um daqueles hippies incríveis que subsistiam fazendo artesanato e pulseiras em Arembepe. Não deram ouvidos e todos prosseguiram vidrados nas telas da dispersão. Distraiam-se com vídeos, jogos e outras efemérides. Satisfeitos com a ilusão de que estavam bem-informados com a pletora de imagens que não valiam um tostão de mel coado.

Moisés olhou para cima perguntando e apontando com os olhos: Oh Onipotente, é isso mesmo?

— Adiante, falou a Voz Primordial, use a linguagem da moçada, e vai em frente.

— Mas Senhor…

(Um raio atravessou a montanha de cima abaixo)

— Indo!

Moisés desceu até os pés da montanha e gritou:

— Pessoal, tenho um anúncio vital para fazer, uma mensagem que transformará todos os destinos.

Apenas um garoto de uns 13 anos de idade desviou-se do celular e lançou um olhar desolador em direção ao profeta:

— Vai ter promo do Spotfi? Perguntou o moleque.

— Será um Som que você jamais esquecerá, provocou Moshe.

— Led Zeppelin?

— São ótimos, mas sem Zepellin

— Não me diga, é o Waters?

— O que é isso companheiro? Absolutamente. Mano, anote aí: nunca apoiaremos racistas.

— Ainda bem, tudo menos aquele coro!

— Lá em cima elegemos Berdich Smetana, Má vlast: quando o chamado é universal, a música ecoa e todos ouvem! Rubinstein que hoje se encontra no terceiro círculo celeste, nas tardes com Gustav Mahler e o pessoal do gabinete cultural sempre fala no cafezinho que a música é uma arte metafísica. E o Grande Mestre, faz questão de ir pessoalmente, e assina embaixo.

Alguns poucos que se livraram da hipnose dos algoritmos sussurraram.

— Faremos e ouviremos!

— Boa.

Destarte, Moisés está indeciso, prestes a voltar alguns degraus acima, quando lhe foi oferecido dar uma volta pelo mundo para avaliar com os próprios olhos o Estado da Arte.

O Altíssimo então elege um disfarce para que Moisés não seja identificado. As roupas, e os óculos de Groucho Marx lhe caem como uma luva.

— Mas Marx Senhor? Não vai soar como uma provocação?

— Sem paranoia criança, entre os 10 pontos do Manifesto Comunista, aqueles que eram justos já estão implementados por ai.

— Perdão, mas é que eles perderam o caminho da roça: a única revolução que não terminou em tragédia ou em tirania foi aquela baseada em teus princípios. Aprendi contigo chefe que aTzedaká nasce de consciência e de atitude, jamais de revoluções sangrentas,

— Por isso mesmo te ofereci roupa e óculos do meu dileto amigo Groucho, capicce? Só rindo para ainda levá-los a sério.

O líder libertador de escravos está enfim pronto para testar a humanidade.

A primeira parada de Moshe foi em NYC.

Assim que chega constata que a fila para o beigale com cream cheese estava enorme, e já dobrava o Central Park, então resolveu visitar um truck food de guefilt fish cem Crown Heights, cuja barraca estava quase vazia.

Conversa com a mulher do balcão:

— Qual é sua graça?

— Ela retira o fone do ouvido, e Moshe repete a pergunta

— Não tem nada de graça, só aquela que vem do Altíssimo

Moisés faz cara de paisagem.

— Ah meu nome? É Amélia, prazer.

Moisés pede para Amélia levá-lo até a porta das Universidades:

— Estou vendo que a situação está russa por aqui também. Que passeata é essa, e que gritaria insana. Eles querem o que? Está faltando terapeuta?

— Ah seu Moisés, falam que querem algo freela na palestrina. Traduzindo em miúdos: querem trabalhar lá no Palmeiras.

-O que preocupa é como vocês acreditam em tudo que assistem aí nessa maquininha. Moisés verifica, inconformado, que a epidemia de adição por I-phones e Esperteza Artificial, é mundial e melancolicamente irreversível.

— Chamo isso ai de pandemia de desinformação consentida.

— E o prefeito de Nova York que tem o podcast “Unidos da cabotinagem”

— Não foi a esposa dele que enalteceu os inimigos da humanidade?

— Ela mesmo.

— E aquele que faz declarações mitômanas e racistas todo dia? De onde ele é mesmo?

— Lá do Brasil.

— Céus.

— Mestre, se você quiser visitar a ONU, a presidência da comissão de Direitos Humanos é do Irã.

— Só há um Mestre. Tem também uma que me falaram – Moisés consulta sua caderneta – é uma tal de Albanazi. Parece que tem muita gente alinhada com essa pauta, mas não parece muito democrático enaltecer racistas. Adolf ressuscitou e não estou sabendo?

(Pequena chuva de meteoros radioativos entopem o firmamento)

Amélia prossegue:

— Senhor, parece que ele ainda tem uns adeptos, hoje muitos estão nas Academias, são mais cerimoniosos e antes de fazer discursos estudam Heidegger e consultam o horóscopo. A truculência é a mesma.

— E como sabem usar disfarces!

— Nisso concordo contigo! Amélia assente com a cabeça e mostra os jornais dos últimos meses para o homem que fora arremessado nas águas do Nilo num cesto.

Folheando as páginas do NYT, Moisés exclama:

— Uma foto falsa ganhou o Pulitzer?

E sacode o jornal esperando que algo de verdade saia dele.

— Esse jornal, prossegue, que já foi uma referência se transforma em reprodutor de libelos fake, ayatollhas pops cantam de galo nas encruzilhadas, me belisca Amélia e me diz: onde é que estamos?

— Seu Guefilte já vai sair, só estamos esperando o Chrein.

— Perdi o apetite, embrulha para viagem que tem gente lá no Paraíso que curte.

 

Moshe se despede, e sai carregado pelos anjos até o Rio de Janeiro.

 

Aterrissa na praça onze.

Vai ter com uma das barraquinhas.

— Amigo, dá lucro esse seu estabelecimento?

— Prazer, Amauri Quebrada. Olha Brother, os impostos aqui nessa terra são confiscatórios, e tem que pagar proteção para a moçada da milicia, male e mal dá para sobreviver, como dizia minha sogra mineira, da mão para a boca.

— Sei muito bem como é que é. Fomos escravos e atravessamos o deserto na base de um alimento que caia do céu.

— Opa, aqui não tem essa, nada cai do céu. Quer dizer tem o bolsa, mas temos que votar nos home.

— E naquela barraca luxuosa vendem o que? Moisés aponta para uma estrutura enorme.

— Ah, lá? Feira do livro “Racismo do bem”.

— E em qual tipo de publicações eles são especializados?

— Banners contra vocês, faixas contra a colonização, livros sobre identitarismo, paninhos xadrez que cobrem a cabeça que eles chama de kafka, são wokes, e adeptos da uma seita chamada de Indignação Seletiva.

— Wokes, eles vendem panelas, não?

— Não sei, mas eles também vendem buttons contra o sistema. Dizem que leram muito, mas cá entre nós só leem as orelhas. Tem até escola de samba os tipos: “Unidos do ódio institucional” manja? De vez em quando saem uns gritinhos de algum processo judicial: Intima a fada. Ou falam refrões ridículos como “do Rio ao Bar”, mas é tudo malandro criado, mora?

— Conheço, papagaios, mas você arriscaria explicar a origem de tanto ódio?

— Boa pergunta, suspeito que uma parte tenha subsídio de governos de gente de longe, do meio do oriente, e de quem fomenta ideias de que viver é a arte da contestação. Se quer saber mesmo, o grosso desses gringos e pelegos não tem a menor ideia do que estão fazendo.

Moisés está desolado e não sabe se quer continuar o tour, mas ao ouvir a Voz Excelsa chamá-lo, entende que vai ter que ir o sacrifício:

— Lembre-se do Bitul filho, Bitul acima de tudo.

(Nuvens de Glória desceram em todo canto)

 

Bitul, significa anulação do ego, ou ainda a auto transcendência, e possui um lugar importante no sistema de valores judaicos. O objetivo é minimizar-se para poder servir e ajudar as pessoas. Pode ser em função de uma causa, um projeto ou ideal que nos excede. É mais do que empatia. Está acima da solidariedade. Essa é a ética do amor da qual muito se fala e pouco se experimenta. Trata-se de uma mudança atitudinal que produz uma atmosfera de consciência nos arredores, e age ao modo de contágio. Uma ética que vai contra os padrões de sucesso a qualquer preço, desejo de prevalecer, e relativiza especialmente a cultura narcisista de nossos tempos. Quer dizer, o Rei Salomão já fazia essa mesma denúncia em Quohelet mais conhecido por Eclesiastes. E pode ser um horizonte que impulsiona as pessoas em direção a um sentido mais fraterno e benévolo para a vida.

Quando Moisés voltou exausto de seu tour, tomou uma atitude decisiva: arremessou violentamente as tábuas da lei contra o solo. Estas se partiram em múltiplos, bilhões de fragmentos. Consciente de que para cada um deles corresponderia uma singularidade, um para cada membro da humanidade.

O drama sempre precede a mudança: o estrondo gigante, de dimensões cósmicas foi ouvido em todo o Mundo, tanto aqueles que estavam no acampamento como em todos os rincões da Terra. abandonaram os aparelhos hipnóticos e tiveram uma epifania instantânea. Entenderam o significado de todos aqueles instrumentos que levam à robotização e à dispersão. Finalmente o milagre: prestaram atenção na comunicação que trazia uma mensagem pessoal.

Sion voltou a escutar, e o mundo despertou do pesadelo.

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Leia também:

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