“Novo Google” impactará decisivamente negócios digitais e como construímos nosso conhecimento
Sundar Pichai, CEO do Google, apresenta mudanças no buscador, durante o Google I/O, no dia 19 de maio – Foto: reprodução
O Google, cuja ambição declarada sempre foi “organizar as informações do mundo e torná-las acessíveis e úteis para todas as pessoas”, anunciou, no dia 19, aquilo que define como a maior mudança em seu buscador desde seu lançamento, em 1998. A tradicional página de resposta com links continuará existindo, mas eles perdem cada vez mais espaço para respostas sintéticas criadas pela inteligência artificial.
Não se trata de uma mera atualização de um produto que organizou a maneira como procuramos informações na Internet. A novidade, apresentada durante a conferência anual Google I/O, pode justamente redefinir como fazemos isso. Ela também deve impactar decisivamente os modelos de negócios de empresas que dependem do tráfego gerado pelo buscador, desde varejistas até empresas de comunicação.
O próprio Google será afetado. O buscador continua sendo sua principal fonte de receitas, vindas de anúncios e links patrocinados, que podem perder relevância no novo formato. Mas o gigante se viu pressionado a fazer a mudança por plataformas concorrentes, como o ChatGPT e o Perplexity, este último um buscador que nasceu em 2022 oferecendo respostas criadas pela IA a partir de buscas que ela mesma faz.
Entretanto, talvez mais importante do que esses choques empresariais seja como isso pode alterar profundamente a maneira como não apenas buscamos informações, mas como construímos nosso conhecimento. Com o buscador, fazemos isso sintetizando o que aprendemos a partir de sites relevantes criados com curadoria humana e diversidade de fontes. Com as respostas prontas da IA, cresce a tendência de se confiar no que a máquina apresenta como verdadeiro, mesmo sem transparência.
Fora de círculos especializados, há pouco debate sobre o risco que essa mudança representa para o futuro de todos nós. E isso agrava esse quadro, cada vez mais consolidado.
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O buscador do Google já flertava com a IA. A “Visão Geral de IA”, que apresenta resumos criados a partir dos sites mais relevantes das respostas, foi lançada em 2024. No ano seguinte, o “Modo IA” aproximou ainda mais a busca de uma plataforma de IA generativa. Segundo a empresa, o primeiro já ultrapassa 2,5 bilhões de usuários ativos mensais, enquanto o “Modo IA” passou de 1 bilhão de usuários em apenas um ano.
Agora, a busca será redesenhada para ser, desde a caixa de pesquisa, uma experiência contínua, conversacional e personalizada, em que agentes de IA podem acompanhar tarefas, agir em segundo plano e misturar sites com dados pessoais, deixando os links como complemento, e não mais como eixo principal da página.
Em outras palavras, as buscas deixam de ser estanques, passando a ser conversas contínuas em que o usuário interage com as respostas, como já acontece com plataformas de IA generativa. Além disso, os comandos podem criar agentes que continuarão monitorando sites e dados necessários para atender o pedido do usuário, de maneira autônoma, mesmo após o fechamento do buscador. Assim, será possível criar robôs para, por exemplo, acompanhar preços de passagens ou monitorar notícias sobre determinado assunto, de maneira autônoma.
Aí reside a grande mudança. A utilidade do buscador deixa de ser a organização de informações e passa a ser o acompanhamento de processos. Isso significa que os usuários não precisarão fazer repetidas buscas e clicar em diversos sites para encontrar o que querem, pois a IA fará isso silenciosamente e por sua conta.
Isso deve reduzir dramaticamente a visitação aos sites que criam os diferentes tipos de informação que alimentam o buscador e a própria IA, que vem desabando desde o ano passado. Sem o tráfego de pessoas que o buscador lhes garante há décadas, muitos desses criadores de conteúdo podem piorar suas entregas ou até fechar.
A IA e o Google tornaram-se sistemas autofágicos, que estão matando o que os alimenta. E, sobre isso, a empresa não deu um pio no Google I/O. Obviamente!
Ameaça ao senso crítico
A lógica da busca tradicional exige esforço intelectual. Com ela, é preciso comparar fontes, interpretar diferenças, analisar versões conflitantes e decidir em quem confiar. Esse processo obriga o usuário a participar ativamente da construção do próprio entendimento. A IA muda essa dinâmica ao transformar a informação em um produto mastigado e entregue com aparência de verdade definitiva, que nos tenta a aceitá-lo.
Esse movimento também dilui a noção de autoria e de responsabilidade. Hoje, quando lemos algo, sabemos quem é o autor e quais interesses podem estar em jogo. Assim, atribuímos pesos diferentes a cada fonte. A IA, por sua vez, tritura tudo em um texto homogêneo, em que o “autor” passa a ser a plataforma. Isso facilita a vida de quem consulta, mas dificulta a tarefa de responsabilizar alguém quando há um erro ou viés.
Existe ainda a erosão de nossa curiosidade. Os buscadores nos acostumaram a abrir abas, seguir links inesperados, cair em sites que não estávamos procurando e, muitas vezes, mudar a pergunta no meio do caminho. Essa deriva é parte essencial da construção de conhecimento, porque nos expõe ao imprevisto e à complexidade.
Concentrar o poder de síntese em poucos modelos e poucas empresas torna o ecossistema informacional perigosamente frágil. Se bilhões de pessoas passam a depender dos mesmos filtros automáticos para entender o mundo, eles distorcerão tudo o que vemos. E jovens crescendo nesse formato podem desenvolver menos repertório crítico e autonomia intelectual, criando um enorme risco civilizatório.
Se o Google quer transformar seu buscador em um “sistema vivo” agindo em nosso nome, a sociedade precisa decidir quais salvaguardas exigirá de quem passa a controlar, em tempo real, a triagem do conhecimento de bilhões de pessoas.
A empresa argumenta que apenas responde a uma transformação dos usuários, o que é uma verdade parcial. As pessoas querem rapidez e praticidade, mas eficiência informacional não é necessariamente sinônimo de amadurecimento intelectual, assim como parte da fricção no processo de busca nos obriga a pensar.
Se a Internet e o Google foram construídos sobre a promessa de ampliar nosso acesso ao conhecimento, a IA parece caminhar para substituir gradualmente nossa participação nesse processo. É hora de perceber que existe uma diferença enorme entre ter respostas fáceis para tudo e realmente compreender alguma coisa.



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