Faculdades de medicina que obtiveram pontuações insatisfatórias na primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) implementaram diversas estratégias para elevar o rendimento de seus discentes e evitar punições severas por parte do Ministério da Educação (MEC). Entre as medidas adotadas estão modificações em atividades pedagógicas, novos métodos avaliativos e a contratação de cursinhos preparatórios especializados na prova.
Os dados oficiais do primeiro exame, divulgados em janeiro, revelaram que 107 dos 305 cursos avaliados obtiveram notas 1 e 2 em uma escala de cinco pontos, patamar considerado insuficiente e passível de supervisão federal. A maioria desses cursos de baixo desempenho está localizada em estabelecimentos de ensino privado. Diante do risco de sanções como a proibição de receber novos estudantes, as instituições correram para adaptar seus currículos ainda no primeiro semestre.
Especialistas em educação, contudo, alertam que tais mudanças administrativas podem inflar as notas no exame sem necessariamente aprimorar a qualidade do preparo médico, contrariando o objetivo original da avaliação governamental. Estudantes de diversas faculdades expressaram preocupação com o redirecionamento do ensino e chegaram a acionar a Justiça para contestar alterações repentinas nas regras acadêmicas.
Na Uniderp, situada em Campo Grande, a nota 2 no exame levou a instituição a elevar a média de aprovação de 6 para 7 pontos em março. Alunos apontaram a redução no atendimento prático a pacientes, substituído por aulas de cursinhos e simulações, o que motivou uma ação judicial. Uma decisão liminar determinou o retorno aos critérios anteriores por falta de antecedência mínima na comunicação da mudança, embora a faculdade tenha recorrido e defendido a legalidade de sua autonomia pedagógica.
Movimentos semelhantes ocorreram na Universidade da Cidade de São Paulo (Unicid) e na Universidade Santo Amaro (Unisa), onde estudantes também protestaram e recorreram à Justiça contra alterações retroativas de critérios e punições relacionadas ao baixo desempenho. Especialistas apontam que a reação institucional é impulsionada pelo temor de severos prejuízos financeiros decorrentes do impedimento de captação de novos alunos.
Representantes de entidades médicas, como a Associação Paulista de Medicina, criticam a substituição de estágios supervisionados em hospitais por aulas focadas em exames, argumentando que a medida compromete a capacitação prática dos futuros médicos. Em contrapartida, mantenedoras de ensino superior sustentam que a revisão dos projetos pedagógicos e o foco na aprendizagem são respostas naturais e necessárias para corrigir lacunas na formação acadêmica.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
