Para escapar de caçadores e de outros perigos associados à presença humana, mamíferos ameaçados de extinção estão transformando a maneira como se deslocam em seus habitats naturais. Uma pesquisa científica recente revelou que, em vez de explorarem novos caminhos na natureza, espécies como o macaco-prego-do-peito-amarelo, no Brasil, e o elefante-africano, no Zimbábue, passaram a adotar trajetos altamente repetidos e familiares ao atravessarem áreas consideradas de risco.
Ao caminharem por rotas habituais no chamado ‘piloto automático’, os animais conseguem diminuir o esforço cognitivo exigido pela navegação. Conforme apontado pelo estudo internacional divulgado na revista Scientific Reports, essa economia de energia mental permite que os indivíduos mantenham a atenção inteiramente voltada para a vigilância do ambiente, o que facilita uma fuga rápida ao menor indício de perigo.
A pesquisadora Andrea Presotto, professora da East Carolina University e primeira autora do artigo, aponta que as espécies optam por táticas de locomoção que demandam menor atenção ao caminho em si para que possam monitorar atentamente os sinais de ameaça em locais marcados por atividades humanas, a exemplo da caça ilegal.
Essa dinâmica, reconhecida pelos especialistas como a ‘paisagem do medo’, traduz-se na variação da percepção de risco que molda o comportamento da fauna ao longo da existência. Cientistas alertam que tais adaptações defensivas podem desencadear efeitos em cascata no ecossistema, resultando em graves impactos ambientais e até mesmo na erosão de culturas animais, termo que abrange costumes transmitidos geracionalmente, desde técnicas de obtenção de alimento até vocalizações específicas.
Patricia Izar, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e coautora do estudo financiado pela Fapesp, detalha que a paisagem do medo engloba a percepção de perigo atribuída a cada setor do ambiente. Enquanto certos locais parecem seguros, outros são vistos como altamente perigosos devido à maior probabilidade de encontros com predadores ou caçadores.
No trabalho de campo, os cientistas monitoraram dez elefantes-africanos equipados com colares de geolocalização em Victoria Falls, no Zimbábue, além de um grupo de macacos-prego-do-peito-amarelo composto por 32 a 37 indivíduos na Reserva Biológica de Una, na Bahia, acompanhados por dois anos através de GPS.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
