Uma ampla investigação conduzida ao longo de três meses revelou a expansão de um ecossistema digital dedicado a atacar o voto feminino no Brasil. O fenômeno, que ganhou força com declarações de figuras públicas como o influenciador Paulo Figueiredo, tem ganhado espaço em podcasts e programas de grande audiência, propagando a narrativa de que a participação das mulheres nas urnas representaria um erro para a democracia ocidental.
Nomes ligados a movimentos de valorização masculina e à chamada cultura redpill, a exemplo do influenciador Renato Amoedo, conhecido como Renato 38ão, têm utilizado plataformas digitais para criticar a independência financeira e a priorização de estudos e carreiras pelas mulheres. Em suas participações, Amoedo associou a conquista do sufrágio feminino em 1932 ao surgimento de mudanças sociais prejudiciais aos homens tradicionais.
O debate também encontrou eco em esferas da política institucional. Durante edições de podcasts voltados a esse público, participantes como a candidata a deputada federal Ana Hering fizeram declarações polêmicas criticando a opinião feminina na política, embora posteriormente tenham alegado tom de sátira ou piada em suas manifestações públicas sobre o tema.
Em paralelo, influenciadoras como Fernanda Guardian e Pietra Bertolazzi manifestaram abertamente oposição ao sufrágio feminino, com Bertolazzi defendendo o retorno a estruturas pré-democráticas e a submissão feminina. Tais discursos encontram paralelos em correntes conservadoras internacionais, incluindo referências nos Estados Unidos ligadas a figuras do entorno do presidente Donald Trump que propõem o conceito de voto familiar.
Questionada sobre o avanço dessas pautas, a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, classificou as propostas de alteração no sufrágio como inconstitucionais. Segundo a magistrada, para extinguir o voto das mulheres no país, a Constituição brasileira precisaria ser literalmente rasgada, apontando os ataques como reflexo de um medo covarde daqueles que não conseguem convencer o eleitorado.
Especialistas em ciência política e neurociência alertam que a naturalização desses discursos representa uma ameaça sutil à própria ordem democrática e às conquistas de igualdade de direitos obtidas ao longo do último século. Enquanto isso, grupos parlamentares já acionaram órgãos competentes para investigar se as manifestações configuram tentativas de deslegitimar a participação política feminina no país.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
