A investigação conduzida pelo Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) sobre suspeitas de desvio de recursos da Santa Casa de Campo Grande identificou um padrão recorrente na movimentação do dinheiro pago a empresas contratadas pelo hospital. Segundo as autoridades, os valores circulavam entre pessoas jurídicas ligadas aos investigados, eram transferidos a terceiros e terminavam em sucessivos saques em espécie, muitos deles fixados exatamente em R$ 49.999.
Para os promotores, essa repetição não era casual. O montante ficava imediatamente abaixo do patamar de R$ 50 mil, limite estabelecido para a comunicação obrigatória destinada ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Em vez de retiradas únicas e compatíveis com obrigações comerciais, o fracionamento intencional dificultava o rastreamento do destino final dos recursos públicos e do plano de saúde da instituição.
A apuração, batizada de Operação Antidotum, teve início após denúncias sobre possíveis desvios ocorridos na gestão de Alir Terra Lima, que assumiu a Diretoria-Presidência da Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande em fevereiro de 2023. Entre os contratos sob suspeita está o firmando com a Redvalue Tecnologia, Administração e Serviços Ltda., contratada em outubro de 2024 sem estudos técnicos adequados para a digitalização de acervo documental.
O Conselho Fiscal da Santa Casa já havia apontado divergências expressivas entre os pagamentos realizados e a produção efetivamente comprovada, calculando um desvio de aproximadamente R$ 511,3 mil apenas nesse contrato. Relatórios internos e questionamentos da Controladoria-Geral do Estado (CGE) encontraram forte resistência por parte da administração do hospital em prestar contas detalhadas sobre a execução dos serviços.
Com a quebra de sigilo bancário, o Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc) mapeou o caminho do dinheiro e detalhou a atuação conjunta de empresas como Redvalue, Exbe Tecnologia e Infortech. A rede operava de forma integrada com trânsito cruzado de recursos, pagamentos recíprocos e a utilização de várias pessoas físicas, entre servidores públicos e empregados, para a realização de saques fracionados em espécie.
A Justiça acatou os pedidos do Ministério Público e determinou prisões de envolvidos, além de afastamentos e mandados de busca e apreensão. A decisão judicial destacou que o modus operandi financeiro indicava uma estratégia clara voltada à fragmentação artificial de verbas para burlar mecanismos de controle. A Santa Casa informou por meio de nota que colabora com as autoridades e segue à disposição para prestar esclarecimentos.
Fonte: www.campograndenews.com.br
