A superfície da Terra é amplamente explorada pela humanidade, mas as regiões profundas do globo continuam a representar um enorme desafio para a comunidade científica. Como as perfurações mais profundas realizadas até hoje alcançam pouco mais de 12 quilômetros, a compreensão do interior terrestre depende de métodos indiretos, como ondas sísmicas, experimentos em condições extremas e modelos computacionais. No entanto, existe uma via de acesso direto a essas camadas ocultas: os diamantes.
Formados sob pressões e temperaturas extremas, os diamantes aprisionam minerais minúsculos durante seu processo de crescimento. Esses materiais permanecem isolados e protegidos por milhões ou bilhões de anos, funcionando como verdadeiras cápsulas do tempo geológico. Enquanto a maioria dessas gemas se forma entre 150 e 250 quilômetros de profundidade, os exemplares mais raros originam-se a mais de 300 quilômetros abaixo da superfície.
Um dos principais jazigos mundiais desses diamantes superprofundos localiza-se no Brasil, mais especificamente na cidade de Juína, em Mato Grosso. Cerca de 90 milhões de anos atrás, erupções vulcânicas de extrema violência trouxeram essas pedras preciosas e raras das profundezas do manto terrestre diretamente para a superfície, permitindo que fossem futuramente coletadas.
Estudos prévios com esses cristais já haviam demonstrado que placas oceânicas transportam água e carbono para o interior do planeta ao afundarem no manto, num processo geológico chamado de subducção. Para aprofundar essas investigações, pesquisadores examinaram um pequeno diamante de apenas três milímetros utilizando as linhas de luz do Sirius, o acelerador de partículas instalado em Campinas.
Por meio de tomografias tridimensionais de alta resolução, a equipe identificou cerca de uma centena de minerais fixados no interior da gema. Entre eles, destacou-se um fragmento composto por três fases minerais distintas — goethita, hematita e magnetita —, completamente encapsulado e sem qualquer tipo de conexão ou contaminação com a superfície terrestre.
A presença de goethita inicialmente intrigou os cientistas, pois o mineral é comum na crosta e costuma aparecer em diamantes devido à infiltração de água por fraturas. Contudo, essa inclusão apresentava deformações em sua estrutura cristalina e coexistia com hematita e magnetita, formando uma associação extremamente incomum para o manto profundo, o que reforça a complexidade dinâmica do interior da Terra.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
