No clássico diálogo “Górgias”, o filósofo Platão coloca Sócrates em um debate profundo a respeito do real poder da palavra. Ao longo da conversação, surge uma tentação ancestral que parece atravessar os séculos: a inclinação humana de valorizar mais a habilidade retórica de convencer do que o compromisso irredutível com a verdade factual. Quando essa inversão de valores predomina, a discussão deixa de buscar o saber para ser decidida puramente pela destreza em agradar e conquistar a plateia, atropelando a própria razão.
Essa preocupação com práticas enganosas e com a vontade de levar vantagem em qualquer situação já ocupava os pensadores há mais de dois mil anos. Embora os meios tecnológicos tenham mudado radicalmente, a sociedade contemporânea continua vulnerável àqueles que sabem exatamente como dizer o que o público deseja ouvir. Enquanto o golpe do bilhete premiado explora essa fragilidade de forma individual, na esfera pública e coletiva a mesma cilada se manifesta quando grupos políticos preservam privilégios ao vender ilusões e promessas confortáveis à população.
Para trazer essa reflexão filosófica ao terreno prático do presente, o relatório Focus divulgado pelo Banco Central em 14 de setembro de 2026 serve como um termômetro essencial. A mediana das projeções oficiais para o crescimento do Produto Interno Bruto em 2026 sofreu recuo, passando de 1,98% registrados quatro semanas antes para 1,89%. Da mesma forma, para o ano de 2027, a expectativa de expansão econômica diminuiu para 1,45%, sinalizando um claro alerta sobre o ritmo futuro da economia que merece ser debatido com sobriedade.
No âmbito das contas públicas, os indicadores também exigem cautela rigorosa. A projeção para o déficit nominal de 2026 atingiu a marca de 8,81% do PIB, ao passo que a estimativa para a dívida líquida do setor público subiu de 69,90% para 70,00% do PIB no espaço de apenas um mês. Paralelamente, a expectativa de inflação para 2026 recuou ligeiramente para 4,90%, mas a projeção para 2027 sofreu revisão para cima, alcançando 4,30%. Com a taxa Selic esperada em patamares de dois dígitos, o cenário macroeconômico demanda atenção redobrada e oferece pouco respaldo a discursos de euforia desmedida.
É exatamente nesse contexto desafiador que os arquétipos discutidos por Platão em “Górgias” parecem reaparecer nos palanques políticos atuais. Por um lado, candidatos da oposição apontam críticas legítimas à condução da política econômica, mas perdem força argumentativa ao apresentarem soluções mágicas e milagrosas sem detalhar a exequibilidade de suas propostas. Promessas de crescimento econômico vigoroso, juros baixos e rigoroso equilíbrio fiscal como se fossem frutos apenas da vontade individual ignoram perguntas fundamentais: quem efetivamente pagará essa conta, quais despesas públicas serão cortadas e quais interesses corporativos precisarão ser enfrentados?
Por outro lado, o candidato à reeleição tende a desenhar um cenário de economia extremamente vigorosa onde a vida da população melhora de forma contínua, ocultando ou minimizando riscos fiscais, dificuldades estruturais e projeções de menor dinamismo. Quando as diferentes correntes políticas escolhem divulgar apenas os números e recortes que lhes convêm, o eleitor acaba recebendo uma narrativa excessivamente conveniente e distorcida da realidade nacional, ficando privado dos elementos indispensáveis para avaliar com lucidez as propostas em disputa.
Ao final da obra de Platão, Sócrates introduz o mito do julgamento das almas nuas, desprovidas de todas as aparências, disfarces e privilégios que as resguardavam durante a vida terrena. Essa poderosa metáfora deixa uma interrogações crucial para o momento eleitoral: retirados os palanques, os aplausos teatrais e as promessas fáceis, o que de fato resta de cada candidatura diante dos problemas reais do país e das necessidades urgentes da população? Se a resposta revelar pouco conteúdo verdadeiro, convém redobrar o cuidado com o ilusório bilhete premiado que tentam nos vender.
Fonte: tnonline.uol.com.br
