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‘Os Armários Vazios’ permite ler Annie Ernaux antes de Annie Ernaux

Publicação no Brasil do primeiro romance de Annie Ernaux, lançado originalmente na França em 1974, revela a gênese literária e os temas centrais da autora antes da maturidade de sua forma literária.

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‘Os Armários Vazios’ permite ler Annie Ernaux antes de Annie Ernaux

A chegada ao mercado brasileiro de ‘Os Armários Vazios’, romance de estreia da escritora francesa Annie Ernaux originalmente publicado em 1974, oferece aos leitores uma perspectiva única e invertida de sua obra. Traduzido por Mariana Delfini e lançado pela editora Fósforo, o livro permite compreender a gênese de uma das vozes mais importantes da literatura contemporânea antes que ela encontrasse a forma concisa e decantada que consagrou títulos posteriores como ‘O Lugar’, ‘Uma Mulher’ e ‘O Acontecimento’.

Na ordem em que vem sendo lida pelo público brasileiro, há uma peculiaridade: o conhecimento de uma escritora que já havia atingido a plena maturidade de seu estilo. Com ‘Os Armários Vazios’, o leitor se depara com um material bruto. Quase todos os elementos fundamentais da trajetória de Ernaux já se encontram presentes na narrativa, como a filha de pequenos comerciantes ascendendo socialmente pela educação, o abismo e a vergonha gerados pelas distinções de classe, a figura da mãe ambiciosa, o distanciamento do pai e a vigilância sobre a sexualidade feminina.

A estrutura do livro é impulsionada por uma situação limite: Denise Lesur, uma estudante de letras de 20 anos, aguarda os efeitos de um aborto clandestino em um quarto de residência universitária. Em meio ao medo e às dores físicas, a protagonista revisita sua infância, as primeiras humilhações escolares, o sucesso acadêmico e as relações com os homens. A memória opera em sobressaltos, acompanhando o ritmo febril do corpo acuado pela possibilidade da morte e buscando o ponto exato em que sua existência tomou aquele rumo.

Décadas mais tarde, a autora retomaria o tema do aborto com maior distanciamento e empenho coletivo em ‘O Acontecimento’. No entanto, no primeiro romance, o episódio funciona como motor de um romance de formação às avessas, em que a fúria e o ressentimento ainda dominam a voz da personagem. O mesmo fenômeno ocorre com a representação dos pais, cuja observação já carrega o horror e a culpa de quem aprendeu a enxergar a própria origem familiar através dos códigos de classe adquiridos na escola.

Essa carga emocional intensa determina diretamente a forma do livro, caracterizado por uma prosa febril, cumulativa e repleta de insultos, associações rápidas e mudanças bruscas de tom. A contenção típica e amplamente associada à escrita madura de Ernaux ainda cede espaço ao excesso e à raiva crua, conferindo ao texto uma pressão psicológica palpável do início ao fim.

Dessa forma, a publicação brasileira de ‘Os Armários Vazios’ funciona como um documento revelador da evolução da autora. O volume evidencia não apenas os alicerces temáticos que sustentariam sua carreira literária nas décadas seguintes, mas também os elementos — como a presença de uma personagem ficcional, o transbordamento emocional e a fúria desmedida — que a escritora precisou abandonar para lapidar o estilo depurado que o mundo passou a conhecer.

Fonte: www1.folha.uol.com.br

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