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‘Branco Ancestral’ transforma bunker no Itaim Bibi em sátira social distópica

Espetáculo teatral em cartaz no Teatro B32, na zona oeste de São Paulo, utiliza o humor e o cenário futurista para debater privilégios, identidade e herança social.

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‘Branco Ancestral’ transforma bunker no Itaim Bibi em sátira social distópica

O Espaço Experimental do Teatro B32, situado no subsolo de um edifício na Avenida Brigadeiro Faria Lima, serve como cenário físico e metafórico para a montagem de “Branco Ancestral”. A sala escura e confinada assemelha-se ao abrigo subterrâneo no Itaim Bibi onde se passa a trama, situada no ano de 2126, após um século marcado por pandemias e colapsos ecológicos.

Na história, o ator Jessé Scarpellini interpreta Alê, apontado como o último sobrevivente humano na Terra. Isolado no bunker, sua incumbência formal seria reiniciar a civilização humana por meio de embriões congelados deixados por seu avô cientista. Contudo, o personagem revela completa inaptidão para o trabalho manual, o cultivo da terra ou a autonomia básica, refletindo a figura de um herdeiro corporativo extremo que domina jargões corporativos, mas desconhece o afeto ou a sobrevivência sem assistência.

A única interlocução constante do protagonista ocorre com MaBê, uma inteligência artificial que ecoa a sonoridade vocal de Maria Bethânia. O enredo constrói um contraste marcante entre as queixas infantis e o vocabulário elitista do jovem rapaz e a gravidade poética e crítica da máquina, evidenciando uma sociedade que programou algoritmos sofisticados, mas falhou em transmitir a sensibilidade humana básica.

O conceito central do espetáculo ironiza o termo que o intitula. Enquanto a ancestralidade costuma ser associada por povos originários e comunidades negras à memória viva, à relação coletiva e ao cuidado com o meio ambiente, a herança de Alê resume-se a infraestrutura de concreto blindado e recursos materiais. A narrativa questiona a validade de reiniciar o planeta se os mesmos padrões destrutivos do passado forem mantidos.

Sob a direção de Bruno Sigrist, a montagem evita exageros futuristas e opta por uma estética enxuta, com iluminação cirúrgica e referências à ficção científica das décadas de 1980 e 1990. A atuação conduz o público por uma comédia de costumes inicial que gradualmente revela a fragilidade de um indivíduo educado unicamente para o controle absoluto, mas que se vê totalmente desamparado diante da nova realidade.

A temporada da peça no centro financeiro de São Paulo segue em exibição no Teatro B32 até o final de outubro, com apresentações aos sábados e domingos, consolidando-se como uma reflexão cênica sobre os comportamentos e privilégios da sociedade contemporânea refletidos em um futuro distópico.

Fonte: www1.folha.uol.com.br

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