A Semana de Moda de Paris encerrou sua temporada de desfiles trazendo uma reflexão profunda sobre o impacto da inteligência artificial e a busca desenfreada pela perfeição estética. Em resposta a essa tendência digital, as grifes optaram por exaltar a vulnerabilidade do processo humano, apresentando roupas que carregam marcas de uso, texturas irregulares e o aspecto genuíno de um objeto moldado pelas mãos de seu criador.
Essa onda de imperfeição começou a se desenhar em outros polos da moda, passando pelos trench coats de aspecto pisoteado exibidos pela Burberry em Londres e pelas saias apresentadas pela Prada em Milão, culminando na síntese agridoce vista na capital francesa. O movimento sugere que se aproximar da essência da vestimenta exige um distanciamento de narrativas excessivamente forçadas para o consumo.
Na passarela da Dior, Jonathan Anderson apostou em linhas suaves e camadas para aliviar o peso de uma maison octogenária. Elementos como barras desfiadas, tecidos que parecem recém-saídos dos rolos e paletós maleáveis sobrepostos reforçaram a busca por uma estética mais pura e humana, adaptando para o vestuário feminino assinaturas já consagradas no universo masculino.
Enquanto isso, a Saint Laurent manteve sua devoção ao dourado e ao legado de Yves Saint Laurent sob o comando de Anthony Vaccarello, explorando metais preciosos em rendas, brocados e jaquetas safari. Na Balenciaga, Pierpaolo Piccioli buscou inspiração na espinha dorsal da alta-costura para criar volumes e mangas texturizadas que remetem ao trabalho artesanal pré-industrial.
Outras grandes casas também marcaram presença com propostas distintas. Alessandro Michele, na Valentino, manteve seu foco no maximalismo, embora a recepção da crítica continue dividida sobre sua adaptação a uma marca de forte tradição em alta-costura. Já na Miu Miu, Miuccia Prada explorou o contraste entre o sportswear e a sofisticação, apresentando peças com camurça encerada, vincos visíveis e vestidos intencionalmente amarrotados.
Encerrando o ciclo de grandes estreias, Matthieu Blazy celebrou seu primeiro ano na Chanel em meio a cenários grandiosos e narrativas poéticas. A proposta buscou dialogar com as múltiplas identidades e com a herança de Gabrielle Chanel, consolidando uma temporada em que a moda optou por abraçar suas próprias falhas e complexidades como principal declaração de estilo.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
