A recente corrida eleitoral brasileira foi predominantemente movida pelo conflito classificado na literatura especializada como ‘guerra cultural’. Trata-se de disputas estruturadas em torno de valores morais e identidades nichadas, nas quais a atividade política é deslocada da esfera econômica para o terreno cultural e normativo.
Dessa forma, temas centrais como economia, segurança pública e relações internacionais acabaram perdendo espaço para debates sobre identidade de gênero, relações étnico-raciais, religiosidade e a cruzada moral voltada para a desinfecção do sistema político institucional.
Essa dinâmica ajuda a explicar o expressivo sucesso de diversos candidatos campeões de votos nas eleições legislativas, tanto no campo da direita quanto da esquerda. Nomes que mobilizam afetos identitários e prometem representação baseada no compartilhamento de condições de existência ganharam forte destaque nas assembleias e no Congresso Nacional.
Na visão de analistas, a política institucional transformou-se em um jogo de espelhos, onde eleitores iguais votam em representantes idênticos e a alteridade é rejeitada. A arquitetura ideológica construída em torno desse movimento é suficiente para preservar a lealdade de uma parcela considerável do eleitorado, independentemente de fatores externos ou pragmáticos.
Por outro lado, a trajetória do atual governo enfrentou o desafio de se descolar da imagem do Supremo Tribunal Federal (STF), uma associação explorada pelo campo oposicionista. Diante de um Congresso Nacional superempoderado, a articulação governista acabou atrelada ao Judiciário na tentativa de equilibrar a correlação de forças políticas.
Para reverter o cenário e buscar uma virada no segundo turno, avalia-se que a campanha de Lula precisa urgentemente deslocar o eixo da disputa, saindo da guerra cultural — território considerado mais favorável ao bolsonarismo — e trazendo o debate para o plano dos interesses práticos da população.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
