Palestrantes da segunda edição da feira Febre de Arte, realizada em Fortaleza, convocaram o público a eleger, nas próximas eleições, candidatos comprometidos com o desenvolvimento de políticas sobre drogas estruturadas em harmonia com a justiça social. Os debates ocorreram no Anfiteatro Sérgio Motta, localizado no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, onde os participantes enfatizaram a importância de votar em representantes que compreendam a complexidade da questão para formular propostas viáveis e eficazes para a sociedade.
Durante o evento, a médica de família e comunidade Magda Almeida, docente da Universidade Federal do Ceará (UFC), criticou a visão reducionista que associa toda e qualquer discussão sobre o tema a discursos rasos. A médica também destacou os impactos da chamada guerra às drogas, apontando que a população negra e empobrecida historicamente concentra o maior número de vítimas da repressão penal no país.
A discussão também abrangeu o uso terapêutico da cannabis e os contrastes regulatórios enfrentados pelos pacientes. Enquanto o mercado farmacêutico disponibiliza alternativas sintéticas de tarja vermelha com efeitos colaterais severos — como a pregabalina —, usuários de cannabis medicinal ainda enfrentam barreiras legais, preconceitos e riscos de criminalização. Especialistas presentes nos painéis reforçaram que a falta de diretrizes individualizadas na medicina tradicional muitas vezes prejudica o tratamento adequado de dores crônicas e distúrbios do sono.
Outro ponto central dos debates foi a relação entre a seletividade do sistema de justiça, o encarceramento em massa e a expansão do poder de facções criminosas nas cidades brasileiras. O advogado criminalista Italo Coelho traçou paralelos históricos entre a repressão a manifestações culturais tradicionais e a criminalização da cannabis, questionando a contradição de um modelo em que corporações farmacêuticas comercializam derivados enquanto pequenos usuários continuam sendo presos sob a acusação de tráfico.
Tamára Silva, cofundadora da Marcha da Maconha de Fortaleza e coordenadora da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (Renfa), argumentou que a atuação tradicional dos órgãos de segurança pública foca exclusivamente na repressão, resultando em um ciclo contínuo de superlotação carcerária e fortalecimento do narcotráfico. Dados apresentados no evento demonstraram o alto custo financeiro e social imposto às famílias de detentos, além dos impactos bilionários decorrentes da aplicação da atual Lei de Drogas e dos índices de violência no país.
A programação da feira incluiu parcerias com associações canábicas do Nordeste e espaços voltados ao acolhimento de pacientes que recorrem ao uso medicinal da planta. O evento buscou unir manifestações artísticas e discussões técnicas para ampliar o diálogo público sobre a necessidade de mudanças estruturais na legislação e nas práticas de segurança pública aplicadas no Brasil.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br
