A expressão “guerras intestinas” carrega uma precisão etimológica marcante para descrever conflitos que ocorrem no interior de um mesmo país, trazendo inevitavelmente uma conotação de disputa marcada por baixarias e sujeira política. Na conjuntura atual, a campanha presidencial brasileira assumiu exatamente esse tom de confronto interno generalizado.
Os principais campos políticos envolvidos na disputa parecem ter abandonado o pudor tradicional, recorrendo a estratégias e manobras que dificilmente seriam empregadas em um ambiente menos polarizado. Embora o populismo e a disseminação de informações falsas não sejam novidades em pleitos eleitorais, o cenário atual exibe esses elementos operando quase sem restrições, acompanhados de níveis elevados de hipocrisia e falta de cerimônia.
Ambos os lados mobilizam ativamente todos os instrumentos de poder ao seu alcance, o que inclui o envolvimento de suas respectivas bases e influências em instituições de peso, como o Supremo Tribunal Federal (STF). Esse movimento resulta em um processo contínuo de desgaste para as instâncias institucionais do país.
Do ponto de vista do eleitorado, a expectativa recorrente de que um grande escândalo cause a implosão imediata da candidatura oposta perdeu força. Análises recentes demonstram que o comportamento do eleitor mudou drasticamente; tanto defensores de Lula quanto simpatizantes do clã Bolsonaro tendem a perdoar deslizes de seus próprios candidatos enquanto interpretam qualquer sinal desfavorável ao adversário como prova incontestável de crime.
Essa dinâmica acirrada levanta questionamentos sobre o futuro da moderação, que historicamente serviu como pilar das democracias liberais. A versão clássica do teorema do eleitor mediano, em que postulantes adotavam posturas mais equilibradas para captar o maior volume de votos, perdeu espaço para a polarização extrema.
Ainda assim, com o pleito virtualmente empatado, o desfecho da disputa continua dependendo da parcela do eleitorado que não demonstra alinhamento orgânico nem com a esquerda petista nem com o bolsonarismo. São esses cidadãos moderados ou independentes que passam a ser o alvo principal das estratégias de guerrilha eleitoral, transformando a moderação de valor democrático em mero recurso estatístico.
Fonte: redir.folha.com.br
