A observação atenta do comportamento de filhotes de primatas revela impressionantes semelhanças com a nossa própria espécie, especialmente no que diz respeito à curiosidade insaciável sobre o funcionamento do mundo ao redor. Diferente de animais que nascem com grande parte dos instintos já formados, os filhotes de primatas precisam aprender quase tudo, tornando a cultura um elemento central para a sobrevivência e adaptação.
Um estudo recente publicado no periódico especializado Science buscou quantificar exatamente como funciona essa transmissão cultural ao longo dos primeiros oito anos de vida de um dos parentes mais próximos da humanidade: o orangotango-de-sumatra (Pongo abelii). A pesquisa aborda a definição científica de cultura como informações capazes de influenciar o comportamento, adquiridas de outros membros da mesma espécie por vias sociais.
No centro da investigação científica está um tema crucial tanto para animais quanto para humanos: a alimentação. Os orangotangos adultos de Sumatra escolhem o que comer a partir de um vasto cardápio com cerca de 250 itens, selecionados em meio a uma floresta tropical megadiversa que abriga dezenas de milhares de espécies vegetais diferentes.
Devido a essa enorme variedade, os animais precisam fazer escolhas alimentares bastante criteriosas e frequentemente precisam aprender a processar determinados alimentos utilizando ferramentas específicas antes de consumi-los. Esse processo de manuseio e preparo também depende fortemente da transmissão cultural e social entre gerações.
O estudo foi coordenado pelos pesquisadores Revathe Thillaikumar e Caroline Schuppli, do Instituto Max Planck de Comportamento Animal, na Alemanha. Ao longo de 1.700 horas de observação, a equipe acompanhou 21 filhotes de orangotangos com idades variando entre seis meses e oito anos, período que compreende a infância e a transição para a maioridade da espécie.
Os dados coletados demonstraram que o aprendizado ocorria predominantemente por meio de uma combinação de observação e testes práticos. Primeiro, o filhote observava atentamente a mãe ou outros membros mais velhos manipulando e ingerindo os alimentos ou utilizando ferramentas, como gravetos para extrair mel; em seguida, o jovem tentava reproduzir a ação de maneira independente.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
