A propaganda eleitoral gratuita na televisão dos candidatos à Presidência da República tem servido de objeto de estudo para críticos de cinema e cultura. A Folha convidou o roteirista Thiago Guimarães e a advogada e crítica Natália Bocanera para analisar os primeiros episódios dos programas de Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante), únicos concorrentes com espaço no horário eleitoral.
Apesar de estarem em polos opostos do espectro político, as propagandas de Lula e Flávio Bolsonaro apresentam semelhanças estruturais marcantes. Ambos os programas iniciam com uma estética fria e acinzentada pautada na denúncia. Enquanto o petista exibe áudios e vídeos para acusar o adversário no caso Master, o candidato do PL retrata um país em crise, com lojas fechadas e geladeiras vazias, atribuindo a responsabilidade ao atual governo.
Segundo Thiago Guimarães, o uso dessa estética documental e jornalística busca transmitir credibilidade em meio a um cenário de desconfiança generalizada. No entanto, após essa introdução sombria, há uma guinada estilística drástica para tons coloridos e trilhas sonoras esperançosas, gerando críticas sobre a falta de unidade visual ao longo das peças publicitárias.
Na sequência, as narrativas enveredar por caminhos que remetem a cinebiografias e à tradicional jornada do herói. A propaganda de Lula utiliza uma trilha sonora militarizada com tímpanos e violinos, assemelhando-se a filmes de guerra como ‘O Resgate do Soldado Ryan’. Por sua vez, Flávio Bolsonaro aposta no realismo social para dramatizar o endividamento popular e a escassez financeira de famílias vulneráveis.
As referências estéticas estendem-se a outros gêneros tradicionais da televisão e do cinema. Para os especialistas, cenas cotidianas exibidas na propaganda do PL, como a de uma criança impedida de levar um biscoito no mercado por falta de recursos, aproximam-se da linguagem direta e estereotipada das telenovelas. O programa de Flávio também recorre a inserções geradas por inteligência artificial para ilustrar comunidades carentes.
Por fim, as campanhas de Ronaldo Caiado e Augusto Cury adotam abordagens distintas. Caiado aposta em imagens oníricas e luminosas em contraluz, evocando a figura imponente de um xerife de faroeste. Já Cury utiliza um cenário improvisado com fundo chroma-key para exibir o caos e a desordem urbana, lembrando estéticas de suspense psicológico ou de filmes de ação policial, convidando o eleitor a refletir sobre os rumos do país.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
