A permanência de metade do eleitorado brasileiro no campo do bolsonarismo, mesmo após os eventos desde 2018, levanta uma das indagações mais relevantes deixadas pelo primeiro turno realizado neste domingo. Especialistas e analistas ponderavam se a pandemia, os conflitos institucionais, a tentativa de golpe, a prisão de Jair Bolsonaro e as sucessivas polêmicas seriam capazes de desarticular ou encolher substancialmente esse grupo político.
Diante desse cenário, duas hipóteses centrais buscam explicar o fenômeno. A primeira aponta que o bolsonarismo consolidou-se como uma força política independente e consistente. A segunda sugere que o sentimento de antipetismo permanece forte o suficiente para unificar faixas distintas do eleitorado sempre que o opositor em disputa for Lula ou o PT.
Os resultados obtidos nas urnas corroboram primariamente a primeira tese. Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, conseguiu preservar o eleitorado do pai e alcançou patamares semelhantes aos registrados em pleitos anteriores. Enquanto Jair Bolsonaro obteve 46% dos votos válidos no primeiro turno de 2018 e 43% em 2022, Flávio registrou cerca de 47% na disputa atual.
Essa estabilidade ao longo de três eleições presidenciais, com dois candidatos diferentes e oito anos de turbulências políticas, afasta a interpretação de que o bolsonarismo representou apenas uma aventura passageira ou uma anomalia eleitoral efêmera aproveitada de forma oportunista.
O fenômeno brasileiro também se conecta a uma tendência internacional mais ampla de avanço da direita radical, observada em países como Estados Unidos, França, Itália, Alemanha e Holanda desde a década passada. Nesses países, forças antes periféricas passaram a disputar o centro do sistema político, e o Brasil desponta como uma das expressões mais fortes dessa mutação global.
Apesar disso, a capacidade de aglutinação eleitoral da direita brasileira encontra forte impulso no antipetismo. Enquanto a identidade antipetista define a oposição ao partido e a Lula, a coordenação antipetista faz com que eleitores conservadores inicialmente alinhados a outros nomes migrem para a opção mais competitiva com chances reais de derrotar o petismo.
Essa dinâmica ficou evidente na reta final do primeiro turno deste domingo, quando candidaturas como as de Augusto Cury, Caiado, Renan Santos e Zema perderam tração e viram seus percentuais comprimidos, enquanto Flávio Bolsonaro se aproximou da marca de metade dos votos válidos, consolidando-se como o polo hegemônico de oposição ao PT no país.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
