‘Bandido bom é bandido morto?’ Veja o que a população brasileira pensa sobre a punição a criminosos
Sua rua é perigosa? Radar da Criminalidade do ‘Estadão’ mostra roubos e furtos em todos os endereços
Ferramenta interativa permite consultar o nº de crimes em cada ponto da cidade com base em dados da Secretaria da Segurança Pública do Estado. Crédito: Amanda Botelho e Vitor Zanon/Estadão
Um levantamento encomendado pelo Instituto Sou da Paz revela que 65% da população dos grandes centros brasileiros querem uma polícia melhor preparada, enquanto 32% desejam mais policiais nas ruas.
O estudo revela que 55% da população acredita que o País precisa aplicar as leis já existentes a todos os criminosos, enquanto 39% defendem o aumento das penas. Somente 20% dos entrevistados concordam com a frase “bandido bom é bandido morto”. Por outro lado, 73% acreditam que os criminosos devem ser julgados e presos pelos seus crimes, enquanto 7% não responderam.
O estudo foi realizado entre novembro e dezembro de 2025, com abrangência nacional, e contou com 1.115 entrevistas presenciais, pessoais e domiciliares.
Foi ouvida a população residente em 40 cidades, entre capitais e regiões metropolitanas do Brasil, com 16 anos ou mais.

Viatura da polícia militar no centro de São Paulo. Foto: Daniel Teixeira/Estadão
De acordo com o Sou da Paz, embora a sensação de insegurança seja colocada entre as principais preocupações dos brasileiros, influenciando comportamentos, opinião e voto, o estudo mostra que essa percepção não é homogênea. A partir de um teste de mensagens inédito em estudos quantitativos, a pesquisa revela que há uma maioria silenciosa que defende propostas que priorizam eficiência, prevenção, uso de tecnologia e respeito à lei.
“Os dados mostram que os discursos consolidados sobre a segurança pública não ressoam mais na população. A sociedade brasileira deseja outras formas de pensar esse tema, para além dos radicalismos cristalizados que não têm trazido resultados reais no dia a dia das pessoas. Há uma maioria silenciosa que busca resultados e eficácia, por isso apoia novas ideias sobre a segurança pública”, diz Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz.
Lugar mais seguro é perto de casa

Prefeitura de SP com painel das câmeras de segurança da cidade. Foto: Pedro Kirilos/Estadão
A pesquisa buscou entender como a segurança é percebida pelo brasileiro. O medo de sofrer algum tipo de violência fez com que 57% da população mudasse sua rotina. Os dados demonstram que 94% dos brasileiros reconhecem algum grau de violência na cidade onde vivem. Porém, quanto mais perto de casa, maior é a sensação de segurança da população: apenas 32% das pessoas se sentem seguras na cidade onde moram, frente a 47% que possuem uma boa percepção de segurança em seus bairros e 59% que se dizem seguros em suas ruas.
Mudança de hábito por auto proteção:
- 53% – Evita sair à noite
- 31% – Evita usar celular na rua
- 29% – Mudou de trajeto
- 13% – Parou de frequentar lugares
- 12% – Passou a andar acompanhado
A sensação de insegurança predomina no Brasil, independente de renda ou idade. Nas capitais do Sudeste, a sensação de insegurança é maior: 61% disseram que a cidade é “muito” ou “super violenta”.
As mulheres apresentam níveis mais altos de preocupação em relação a esse tema. Segundo a pesquisa, 74% delas se sentem inseguras nas cidades, uma porcentagem maior que a geral. Além disso, 83% das pessoas identificaram a violência contra a mulher presente em suas cidades, demonstrando a relevância da violência de gênero nas discussões sobre segurança pública no país.
A pesquisa identificou que os roubos são os crimes mais relatados como frequentes nas cidades, tendo sido citados por 91% dos participantes. Para 89%, o roubo de celular é um crime frequente. Foi percebido que as pessoas não fazem distinção entre roubo, furto e assalto: o impacto maior na população está na sensação de vulnerabilidade que esses crimes causam.
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Tipos de violência na cidade onde mora:
- 91% – Roubos e furtos
- 89% – Roubo de celular
- 89% – Tráfico de drogas
- 83% – Assassinato/mortes violentas
- 83% – Violência contra mulheres 83%
- 77% – Presença do crime organizado
- 75% – Assaltos/invasão de propriedade
- 75% – Violência sexual
Polícia menos ostensiva, mais preparada
A estratégia de apostar em uma polícia ostensiva para tentar sanar a percepção negativa da população em relação à segurança não tem aval da maioria da população. Apenas 32% das pessoas acreditam que aumentar o efetivo policial nas ruas melhora a segurança. Já 65% acreditam que é necessário uma polícia mais preparada para mudar o cenário de violência no País. A pesquisa mostra que 82% defendem o uso de câmeras corporais.
Os dados sobre a percepção de violência nas cidades apontam que o medo está menos associado a crimes letais isolados e mais à sensação da presença de pessoas armadas, especialmente nos espaços públicos. As armas de fogo são identificadas como um risco à vida: 60% dos entrevistados disseram ser contra ter acesso a armas de fogo em casa.
Além disso, 77% entendem que armas legais são compradas, roubadas e utilizadas em atos violentos quando vão para o mercado ilegal.
Porém, há uma discrepância entre a percepção das mulheres e dos homens: elas são mais contra ter armas em casa (69%) do que eles (49%).
A confiança da população nas forças de segurança é maior na Polícia Federal (68%), do que na Polícia Civil (52%) e Polícia Militar (58%), sendo mais baixa ainda na polícia municipal ou guarda civil (55%).
Para Carolina, os resultados apontam para uma sociedade que busca soluções que vão além de abordagens tradicionais, ampliando o espaço para um debate público mais qualificado sobre segurança pública. “Não podemos encarar a violência apenas como dados estatísticos, ela é um fenômeno que atravessa e interfere no cotidiano das pessoas. A pesquisa mostra que a população não aceita mais respostas simplistas e punitivistas para as suas dores. Os discursos estabelecidos sobre segurança não surtiram efeito, as pessoas desejam algo novo, que seja pragmático, constitucional e eficiente”, diz a diretora-executiva do Instituto Sou da Paz.


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