O despejo de Maricarmen, uma mulher de 87 anos, do apartamento onde morava há sete décadas no bairro do Retiro, em Madri, chocou a opinião pública e escancarou a gravidade da crise habitacional enfrentada pela Espanha. O caso ocorreu após uma longa batalha judicial decidida a favor da empresa proprietária do imóvel, resultando na execução da medida pela comissão judicial em sua quarta tentativa.
Maricarmen, que possui mobilidade reduzida e 50% de incapacidade, precisou deixar a residência em uma cadeira de rodas antes de ser encaminhada a um hospital para exames médicos. Ela acabou optando por ir morar com familiares. O episódio mobilizou dezenas de ativistas que protestaram em frente ao edifício contra a disparada dos preços dos aluguéis e a escassez de moradias acessíveis no mercado espanhol.
O apartamento de 92 metros quadrados era ocupado pela família desde 1956, quando o pai da idosa assinou o contrato original sob a normativa de locação antiga, herança da ditadura franquista que garantia valores historicamente baixos. Com o falecimento dos pais, o direito de permanência foi transferido para Maricarmen, que pagava 500 euros mensais, quantia muito inferior à média atual da região privilegiada da capital.
A situação jurídica mudou após a venda do prédio para empresas de investimentos. A atual proprietária, a Urbagestión, passou a exigir valores atualizados que chegaram a 2.650 euros e, posteriormente, a 1.650 euros mensais — montante que superava a aposentadoria de 1.350 euros recebida pela idosa. Tentativas de acordo, ofertas de compra e propostas de cobertura financeira por terceiros foram rejeitadas pelas companhias envolvidas.
A execução do despejo gerou fortes reações políticas e sociais. Enquanto o Ministério da Habitação classificou o episódio como dramático e culpou a especulação imobiliária, o governo e entidades de direitos humanos criticaram a rigidez das empresas. Em contrapartida, defensores do setor imobiliário argumentam que a insegurança jurídica e a lentidão dos processos de desocupação acabam desestimulando novos investimentos em locação.
A crise de moradia na Espanha é agravada por um descompasso estrutural entre a oferta e a demanda nas grandes cidades. Dados do setor indicam um salto expressivo nos preços dos aluguéis ao longo da última década, impulsionado pela desaceleração na construção de novas residências e pelo aumento na formação de novos lares, cenário que continua pressionando inquilinos vulneráveis em todo o país.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
