O fascínio global pelos polvos tem gerado uma onda de conteúdos em redes sociais, livros e produções audiovisuais que destacam a inteligência desses animais. No entanto, esse interesse crescente também tem sido marcado por omissões importantes no reconhecimento de pesquisas científicas pioneiras realizadas fora dos grandes centros internacionais, como um estudo fundamental desenvolvido no Brasil.
A popularidade dos cefalópodes ganhou enorme tração com obras literárias e cinematográficas, incluindo o aclamado documentário ‘Professor Polvo’, vencedor do Oscar, e produções mais recentes da Netflix. Embora a ficção frequentemente atribua características humanas avançadas a esses moluscos, a ciência tem se dedicado a compreender com rigor os reais padrões de comportamento e fisiologia desses animais.
Nesse contexto, um dos avanços mais significativos foi a constatação de que os polvos dormem alternando entre fases distintas, com características que lembram o sono REM observado em mamíferos. Essa forma de descanso foi documentada e quantificada pela primeira vez por cientistas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em um artigo publicado no periódico iScience em 2021.
A pesquisa foi conduzida por Sylvia Medeiros e colaboradores, sob a orientação de Tatiana Leite e Sidarta Ribeiro, a partir de filmagens de espécimes adultos de Octopus insularis. Durante a investigação, os pesquisadores detalharam o estágio de sono tranquilo e a fase ativa, na qual ocorrem rápidas mudanças na textura e coloração da pele, além de movimentação ocular.
Apesar da relevância internacional do achado, o reconhecimento tem esbarrado em barreiras geográficas e de visibilidade. Durante uma visita ao National Geographic Museum of Exploration, em Washington, Tatiana Leite deparou-se com uma apresentação interativa que abordava o sono dos polvos, mas creditava a descoberta exclusivamente à bióloga australiana Alexandra Schnell, ignorando por completo o grupo brasileiro.
A mesma distorção histórica foi identificada no documentário ‘Secrets of the Octopus’, também da National Geographic. Diante da falha na atribuição, a pesquisadora brasileira enviou uma comunicação formal à National Geographic Society solicitando a retificação, alertando sobre como a omissão de centros científicos latino-americanos prejudica o registro histórico adequado da ciência global.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
