O artista português Pedro Cabrita Reis celebrou a virada de seus 70 anos de idade no Maat, o Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia de Lisboa, cercado pelos profissionais que preparavam a sua nova exposição, intitulada “Com o Coração Livre de Cuidados”. A grande sala ovalada do museu abrigou a monumental obra “3=1”, composta por pilhas de barras de alumínio com intervenção mínima de pintura branca, exigindo o uso de guindastes durante a montagem que avançou pela madrugada.
No início do percurso expositivo, o público encontra a série de colagens de 2015 intitulada “Ridi Pagliaccio”. Nesses autorretratos, o artista mistura fotografias suas com interferências e rabiscos pueris, traçando roupas quadriculadas e adicionando chapéus pontiagudos sobre sua careca. O título remete à ópera de 1892 e reflete a crença de Cabrita Reis de que a capacidade de rir de si mesmo garante uma liberdade artística absoluta.
A liberdade se consolida como valor central na série “Ecce Homo”, produzida no ano anterior. Nessas telas de coloração intensa e forte presença de tons dramáticos, o artista dialoga diretamente com o cânone ocidental e com passagens bíblicas tradicionais retratadas historicamente por mestres da pintura europeia como Albrecht Dürer e Caravaggio.
Nas figuras que emergem dessas telas, as formas lembram o próprio autor, careca e de barriga proeminente, retomando a tradição de artistas que se retrataram na figura de Cristo. Para Cabrita Reis, as referências clássicas funcionam apenas como matéria-prima, equiparáveis a tijolos ou pedras, destituídas de qualquer receio reverente e ressignificadas por sua abordagem contemporânea.
Nascido em Lisboa em 1956 e formado pela Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, Cabrita Reis consolidou-se como um dos principais nomes da arte contemporânea de seu país. Sua produção artística caracteriza-se frequentemente pelo uso de materiais cotidianos e de descarte oriundos da construção civil, mantendo forte ligação com elementos estéticos e culturais de matriz religiosa.
Embora não se declare devoto, o artista aponta o catolicismo como parte incontornável de seu repertório cultural e da memória coletiva. Para Pedro Cabrita Reis, o próprio ato criativo constitui uma manifestação suprema de fé e inteligência interior, dispensando dogmas formais e libertando o criador das amarras tradicionais da crença religiosa.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
