Sistemas de anéis ao redor de corpos celestes, tradicionalmente associados a gigantes gasosos como Saturno, revelam-se estruturas dinâmicas e complexas no universo. Formados por fragmentos que vão desde poeira fina até pedregulhos de gelo e rocha, essas formações surgem e se dissipam ao longo do tempo. Esse comportamento mutável tem sido observado de perto em corpos menores, a exemplo do centauro Cáriclo, um asteroide composto por gelo e rocha localizado entre as órbitas dos planetas gigantes.
Cáriclo destaca-se na astronomia por ser um dos quatro corpos menores do Sistema Solar exterior conhecidos por possuírem anéis, ostentando a particularidade de ter sido o primeiro pequeno astro descoberto a apresentar um sistema com mais de uma faixa. O sistema é composto por dois anéis finos que orbitam a 390 e 405 quilômetros do centro do objeto.
A descoberta inicial ocorreu em 2014, liderada por um grupo de pesquisadores encabeçado por Felipe Braga-Ribas, atualmente na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR). Desde então, o astro passou a ser monitorado de forma rigorosa em eventos específicos devido à enorme dificuldade técnica para detectar estruturas tão sutis e distantes.
O método empregado pelos astrônomos para estudar os anéis é a ocultação estelar. Nesse processo, o astro cruza a linha de visão entre a Terra e uma estrela distante, bloqueando momentaneamente a luz estelar. Isso permite analisar tanto o corpo principal quanto os elementos ao seu redor que interceptem a luz vinda do espaço profundo.
Em uma pesquisa recente publicada na revista Science Advances e liderada por Pablo Santos-Sanz, do Instituto de Astrofísica da Andaluzia, na Espanha, cientistas utilizaram o Telescópio Espacial James Webb para registrar uma ocultação estelar protagonizada por Cáriclo em 18 de outubro de 2022. Os dados mostraram que os anéis apareceram com nitidez, enquanto o núcleo do asteroide não chegou a bloquear a luz da estrela.
A grande surpresa para a equipe, que contou com a participação de Braga-Ribas e outros pesquisadores brasileiros, foi constatar que os anéis apresentavam alterações expressivas em comparação a registros anteriores. A faixa mais interna revelou-se consideravelmente mais opaca, ao passo que a estrutura mais externa exibiu uma assinatura mais sutil, reforçando a tese de que o sistema passa por transformações em tempo real.
As análises sugerem que o anel mais interno pode estar recebendo reabastecimento de material ou passando por um processo de reestruturação profunda. Em contrapartida, o anel externo aparenta perder massa, levantando a hipótese de que sua existência seja efêmera e transitória. O avanço nas investigações dependerá de campanhas futuras, consolidando o potencial do Telescópio James Webb para desvendar os segredos mais discretos do Sistema Solar.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
