Veículos regionais de imprensa enfrentam um cenário alarmante composto por ações judiciais, ameaças graves e atentados após a publicação de reportagens que desagradaram candidatos em plena disputa eleitoral nas regiões Norte e Nordeste do país. As pressões locais têm comprometido o livre exercício da atividade jornalística e levantado alertas sobre riscos à democracia.
No caso mais drástico, o portal de notícias Tapajós de Fato, sediado em Santarém (PA), optou por suspender integralmente a sua cobertura eleitoral. A decisão ocorreu após uma sequência de agressões físicas e psicológicas direcionadas aos seus profissionais, incluindo um repórter esfaqueado e um colaborador que recebeu em sua residência a cabeça de um animal.
Entidades representativas do setor, como a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e a Associação Nacional de Jornais (ANJ), classificaram os episódios como violações graves que prejudicam o jornalismo livre. A presidente da Abraji, Ana Carolina Moreno, destacou que a desistência de jornalistas em cobrir temas de relevância por medo da própria morte representa uma derrota incalculável para a sociedade.
Em Alagoas, o portal independente Mídia Caeté foi alvo de determinação judicial do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-AL), que exigiu a exclusão de uma reportagem sobre a suposta oferta de dinheiro a estudantes em troca de presença em um evento político com o deputado federal Rafael Brito (MDB-AL). Além da remoção, o veículo cooperativo recebeu uma multa de R$ 5.000, decisão que a redação tenta reverter no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Ainda em território alagoano, o jornal Tribuna do Sertão foi obrigado por uma decisão liminar do TRE-AL a retirar do ar uma matéria que mencionava investigações sobre a aplicação de R$ 97 milhões do Instituto de Previdência de Maceió (Iprev) no banco Master. A ordem judicial também determinou o recolhimento imediato de todos os exemplares impressos distribuídos na semana anterior, a pedido da coligação do ex-prefeito e candidato ao governo estadual JHC (PSDB).
Para a Associação Nacional de Jornais, a exigência de retirada da reportagem e o recolhimento de edições que já circulam configuram atos explícitos de censura prévia, condutas vetadas pela Constituição Federal de 1988. O jornal já havia sofrido condenações anteriores por conteúdos críticos à gestão municipal, evidenciando o clima de forte polarização e restrições judiciais à imprensa regional.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
