A nova ópera “Chica da Silva”, em cartaz no Palácio das Artes em Belo Horizonte, busca afastar-se do mito e da forte carga de sensualidade eternizados no cinema e na televisão ao longo das últimas décadas. Em vez disso, a montagem propõe uma investigação profunda sobre a humanidade de uma mulher negra que navegou pelos complexos conflitos raciais e econômicos do século 18 em Minas Gerais.
Produzida para celebrar os 55 anos do Palácio das Artes, a obra estreou na capital mineira e conta com apresentações programadas para os próximos dias, após ter tido uma versão reduzida encenada na cidade histórica de Diamantina. O libreto foi escrito por Marcos Bernstein, conhecido por seus trabalhos no cinema, em parceria com Flávia Bessone.
Segundo os criadores, a proposta central é tencionar os olhares externos direcionados a Chica com os prováveis desejos e aflições da personagem real. Nascida entre 1731 e 1735 como filha de um homem branco e uma mãe escravizada, ela viveu o período áureo da extração de diamantes no antigo Arraial do Tejuco e manteve união de 17 anos com o contratador João Fernandes de Oliveira.
A montagem dedica seu primeiro ato a destacar os enormes desafios enfrentados por um relacionamento inter-racial em pleno período colonial. O elenco conta com a soprano Marly Montoni no papel principal e o tenor Ewandro Stenzowski como o contratador, trazendo forte carga dramática e referências biográficas para a construção de seus personagens.
Para enriquecer a imersão histórica e cultural, a direção cênica de Julianna Santos incorporou elementos da cultura afro-brasileira, como intervenções de congado, capoeira e símbolos adinkra da África Ocidental na composição do cenário. A direção musical é conduzida por André Brant, com música original assinada por Guilherme Bernstein.
A iniciativa consolida o compromisso do complexo cultural mineiro em valorizar narrativas e produções ligadas às raízes do estado, repetindo o esforço visto em montagens anteriores de grande porte, como a ópera dedicada a Aleijadinho em 2022.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
