A lentidão na resposta ao surto de ebola na cidade de Mongala, localizada no leste da República Democrática do Congo, tem gerado críticas severas entre profissionais de saúde locais, que apontam o atraso como fator determinante para o agravamento do número de óbitos. Enquanto outras localidades da província de Ituri viram estruturas de atendimento serem erguidas poucas semanas após a declaração de emergência sanitária pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em maio, os esforços em Mongala só ganharam tração efetiva no mês de agosto.
O atual surto, classificado como o segundo maior já documentado no país africano, espalhou-se por sete províncias e acumulou mais de 3.900 mortes desde maio, com estimativas de que a propagação tenha tido início em janeiro. Dados recentes dos Centros Africanos de Controle e Prevenção de Doenças indicam que o volume de novos contágios semanais atingiu um pico em agosto, impulsionado pela escassez inicial de apoio internacional e pelas dificuldades logísticas enfrentadas na região.
Profissionais que atuam na área relatam cenários dramáticos de abandono nas primeiras semanas da crise, agravados por fatores geográficos e de segurança. A escassez de infraestrutura hoteleira em Mongala obrigava equipes humanitárias a realizarem deslocamentos diários de três horas a partir de Bunia, por estradas precárias afetadas por poeira intensa e lama após períodos de chuva, além da presença de insurgentes armados em rotas terrestres.
As consequências estruturais refletiram-se diretamente nas condições de atendimento médico. O hospital distrital de Mongala operou inicialmente sem instalações adequadas, utilizando uma casa de barro sem janelas ou ventilação adequada para isolar suspeitas da doença. A circulação livre de pacientes sintomáticos por áreas comuns e a ausência de uma divisão rígida entre zonas de contágio e áreas seguras facilitaram novos contágios entre a equipe médica local.
Adicionalmente, a ausência de campanhas precoces de conscientização e a suspensão temporária no pagamento de funcionários públicos pelo governo alimentaram a desconfiança da população local em relação aos hospitais. Boatos infundados sobre o atendimento médico resultaram em boicotes e em um aumento alarmante de sepultamentos realizados em domicílio, ampliando a transmissão comunitária do vírus e elevando os índices de mortalidade não apenas pelo ebola, mas também por outras comorbidades negligenciadas pelo medo generalizado.
Apesar do início recente da construção de um centro de tratamento definitivo administrado por organizações humanitárias e do esforço para mobilizar recursos logísticos, autoridades sanitárias locais avaliam que o impacto humano poderia ter sido substancialmente mitigado caso a intervenção externa houvesse ocorrido em consonância com as primeiras fases da emergência declarada no país.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
