O recado das urnas revelou uma grande onda de direita na direção da mudança de nomes tradicionais e do padrão de representação política predominante desde a redemocratização do país. Esse movimento não surge do acaso, mas de uma base material da sociedade em constante transformação, evidenciando uma dissociação marcante entre a condição econômica e a identidade política dos cidadãos.
A pesquisadora Rosana Pinheiro-Machado aponta a existência das chamadas ‘classes aspiracionais’, que englobam segmentos populares que ampliaram seus horizontes, passaram a desejar futuros diferentes e consideram que merecem mais. O objetivo central é consumir melhor, obter ganhos financeiros, conquistar autonomia, controlar o próprio tempo e afastar-se da condição subalterna, algo impulsionado em boa medida pelas transformações sociais geradas durante os governos petistas.
No entanto, as aspirações acabaram crescendo em ritmo superior às possibilidades reais de realização, coincidindo com um período em que o mercado de trabalho se tornou consideravelmente mais precário, informal e dependente de plataformas digitais e redes sociais. Nesse cenário desafiador, a promessa do empreendedorismo ganhou força: a ideia de ser dono do próprio destino, faturar dinheiro e abandonar a subordinação a um patrão.
Existe uma distinção política fundamental levantada pela pesquisa: não basta apurar se o indivíduo alcançou suas aspirações, mas compreender a quem ele credita tal trajetória. Quem reconhece o papel do Estado na melhoria de sua qualidade de vida constrói uma relação distinta daquele que enxerga suas conquistas exclusivamente como fruto do esforço individual, percebendo o poder público apenas como um agente cobrador de impostos ou criador de entraves.
Uma parcela expressiva dos trabalhadores permanece em situação de pobreza ou enfrenta intensa insegurança econômica, mas já não se enxerga na figura tradicional do trabalhador com a qual a esquerda historicamente dialogou. Trata-se de motoristas de aplicativo, microempreendedores individuais, cabeleireiras, entregadores e pequenos comerciantes que acumulam múltiplos papéis e se veem menos como classe e mais como protagonistas de sua própria ascensão.
Para esse novo perfil, discursos pautados unicamente em direitos, proteção e benefícios estatais podem soar insuficientes ou até mesmo como apropriação de seu mérito pessoal. Enquanto a esquerda mantém seu conforto nos valores tradicionais de seguridade, a direita tem encontrado uma linguagem eficiente para oferecer reconhecimento ao indivíduo que busca se virar sozinho, desafiando a capacidade de adaptação do campo progressista na reta final do processo eleitoral.
Fonte: www1.folha.uol.com.br
